Tire a sua sombra para dançar

Ester Gehlen
Nov 5 · 4 min read
Fotografia: Ester Gehlen

(A primeira frase é sempre a mais difícil de qualquer texto. Depois, elas simplesmente acontecem — uma após a outra, enfileiradas, obedientes. Mas a primeira, a gente tem que ir buscar, e às vezes tem que trazer no braço, se necessário. Foi assim que eu tomei a decisão de iniciar este Medium.)

De uns tempos para cá, eu confesso que tenho me cansado um pouco das redes sociais. A razão é que esse ambiente virtual, originalmente feito para compartilhamento e conexões, tem se transformado em algo cada vez mais tóxico. Virou um espaço de troca de ofensas e necessidade de afirmação egoica, gerando apenas mais afastamento entre as pessoas. Claro que estou generalizando, ainda há muitas ilhas que se salvam e sempre é bom lembrar que existe a opção de deixar de seguir. Me faz pensar que o espaço virtual é uma espécie de tribuna pública dos dias de hoje, e portanto apenas amplifica vozes que já estavam por aí.

Mas o que tem me chamado atenção não são os posts mais óbvios, agressivos, e sim a quantidade de toxicidade que se esconde justamente naquelas postagens que trazem “as melhores intenções”… Bem, vocês conhecem o ditado. Para defender uma causa nobre, faço uma postagem engraçadinha que ataca todos os que não têm um estilo de vida, pensamento ou alimentação exatamente iguais aos meus. Os likes dos amigos ajudam a costurar a bolha de certezas, a sensação de ter razão abraça o ego e a causa nobre em si continua lá, no mundo real, sem soluções verdadeiras.

Aos poucos começamos a encher o feed com este tipo de conteúdo, que só alimenta mais hostilidade. E o pior é que contamina: Muitas vezes me peguei compartilhando ou sentindo vontade de compartilhar coisas do tipo, até que percebi que por todos os lados a sensação era de ter dedos apontados, e ao me pegar compartilhando as mesmas coisas eu me senti apontando dedos para os outros também. Decidi parar de compartilhar qualquer coisa que alimente este ciclo de negatividade, e embora as vezes dê umas escorregadas, me dou o direito de dar uma cutucada em mim mesma e dizer “hey amada, hello”… voltar lá e excluir.

Essa introdução toda é pra chegar no cerne desta reflexão: O que temos colocado no mundo, com nossas palavras e nossas ações? Estamos vivendo aquilo que acreditamos, ou será que por trás de uma publicação que aparentemente prega a paz não estamos, na verdade, ajudando a semear mais violência e separação entre as pessoas? Será que nessa ânsia de não ouvir mas querer ser ouvido, não percebemos ainda que acabamos sendo parte do problema que juramos querer resolver? A violência, quando chega no extremo, é só a parte mais óbvia de uma semente que foi plantada muito antes. Ela está nas pequenas ações diárias, disfarçada de maneira sutil, mas igualmente corrosiva. Violência é violência.

Não estou dizendo para não nos revoltarmos com as injustiças, de maneira alguma, mas para percebemos se os resultados de nossas ações efetivamente estão contribuindo para atingir o lugar certo ou estão respingando em quem não tem nada a ver com isso e que poderia se unir a nós para uma transformação maior, se focássemos mais naquilo que nos une do que nas diferenças.

Eu acredito realmente que a melhor maneira de sermos honestos com nossas ações e crenças é conhecendo a nós mesmos. E se conhecer pressupõe a coragem de olhar para si de verdade, não apenas para aquilo que é bonito, digno e virtuoso, mas para a nossa escuridão interna. Não, não é nem um pouco agradável. Mas é o que vai te fazer aceitar a si mesmo como um ser humano, e só assim você vai conseguir começar a aceitar o outro como um ser humano também: Alguém cheio de demônios esquisitos, assim como você. É o início de uma verdadeira experiência de empatia e compaixão.

Olhe para sua sombra e entenda o que ela quer te mostrar. Talvez o pote de ouro não esteja no final do arco-íris, mas sim enterrado lá no fundo do que é mais escuro dentro de cada um de nós. Mergulhe. Tire a sua sombra para dançar. Acolha suas incoerências. Transmute em compreensão. Vai doer, não tem outro jeito. Você estará se despindo de tudo que não é você, mas a coragem de descobrir quem você é vai dar um sentido real à sua existência, mais do que qualquer discurso pronto. Toda revolução verdadeira só começa de dentro para fora. Enquanto cada um de nós ignorar o nome de nossos demônios interiores, não tem religião ou sistema político que vá dar jeito na humanidade, e o ciclo de atitudes movidas por egoísmo e medo vai seguir persistindo por eras a fio.

Mas cuidado, se optar por entrar nessa — o processo vai te tomar os dias. Uma vez iniciada a jornada de remexer na sombra, é inevitável começarmos a ficar tão ocupados com o que vamos descobrindo, que já não sobra mais tempo para projetar fora de nós, no mundo ou nos outros, as nossas próprias inquietações.

Ester Gehlen

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Acredito que autoconhecimento é a chave e que toda revolução começa de dentro para fora. Compartilho e expresso o que a vida me ensina através da Arte.

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