Eu sou mais louca que você

— Vai, filho, te esconde no banheiro!

Eu fui, com medo.

Era o SOS Criança. Denúncia: trabalho infantil.

- Meus filhos vocês não vão levar, não!

Eu não compreendia. Eu a via virar noites e dias. Não era a primeira vez que batiam à nossa porta — embora ela nunca tenha compartilhado isso comigo e com minhas irmãs. Lembro dela, nessa vez muito exaltada, dizendo que dos filhos ninguém iria separá-la. Os vizinhos que denunciavam não conseguiam entender como nós, tão miúdos, podíamos ajudá-la sem perder a doçura da infância. Para eles, era como se o trabalho nos subtraísse a inocência de ser criança e deixasse apenas traços do que poderia ter sido, mas não foi.

Sim, ajudei minha mãe desde pequeno. Acompanhei meus pais na época em que vendiam sanduíches e depois, em condições melhores, quando montamos nossa primeira barraquinha na praia. Dos vendedores que trabalharam para nós alguns eram viciados, traficantes e homicidas. Já nossos clientes na praia eram, em sua maioria, bem vividos que aqui veraneavam. Cresci lidando com os mais diversos tipos de pessoas. Gente pobre e gente rica; de todas as cores, crenças, rendas, lugares. O convívio com perfis tão diferentes não me deu a possibilidade de criar preconceitos. Foi assim que aprendi a ver além.

Os dias eram longos e o sol forte. Meus pais somatizavam 20 horas diárias de trabalho. Muitas vezes, trabalhavam à base de pó de guaraná para suportar a rotina puxada e pesada. A imagem da minha mãe era dura, embrutecida. Lembro quando voltou humilhada de um dia de trabalho: do alto do restaurante Maurílio, na Joaquina, alguém lhe desferira uma cusparada. Meus pais eram professores de formação e profissão, mas, ao trazerem ao mundo três filhos, minha mãe logo soube que nem todas as aulas dadas seriam suficientes para prover o futuro que sonhara para nós.

Ela vinha de uma família abastada de uma cidadezinha que acreditava que aos machos se davam os créditos pelo sucesso financeiro do clã. Para os herdeiros homens, o carro do ano, as festas e a empresa; para as mulheres, o conselho apressado de “encontre um marido rico”. Foi assim que Dona Kátia, minha mãe, casou-se com meu pai: presidente do centro acadêmico, futuro professor e sempre poeta. A diferença estava na riqueza proposta por sua família e na riqueza encontrada por ela nos braços de seu Selmiro. Quando começaram na praia, o trabalho era humilhante. Vê-los ali, de caixa de isopor em mãos, percorrendo um trajeto tão destinado a pés na areia e cabeça ao vento, era, por vezes, incômodo àqueles que se bronzeavam, construiam castelos de areia, caiam de cabeça no mar. Não se intimidaram, não havia opção de parar.

Mesmo com um bom número de funcionários, faltavam braços e mãos para eles e nós ajudávamos da maneira que podíamos. Em um momento, tivemos uma pequena fábrica de sucos. Era coisa assim de centenas de caixas de sucos de laranjas que fazíamos para revender através dos ambulantes. Com os aparatos montados lá em casa, eu os ajudava pilotando a máquina industrial que espremia as frutas. O equipamento, de dois metros, parecia ainda maior ao lado da minha pequenez. O pessoal ficava louco, e eu achava um barato. Num determinado dia, recordo-me de encher dois freezers de garrafinhas de suco e, após terminar o trabalho, lá pela meia-noite, ir dormir. O correto seria, antes, desligar as máquinas da tomada para que não houvesse gasto energético. Eu, cansado, não lembrei. No outro dia, ao reparar o erro, meu pai ficou nervoso pela perda que aquilo representaria em nosso orçamento. Mas era eu, eu que estava desesperado. Ele não me puniu. Apesar do acontecido, estava orgulhoso. Se eu dissesse, à época, que não queria ter passado aquela noite fazendo suco, muito provavelmente a resposta de meu pai seria que tudo bem, não era necessário. Não éramos obrigados por ele ou por minha mãe. Era, talvez, a própria vida quem estava nos impondo a tarefa.

Apesar do retorno financeiro visível, faltava a meu pai o conhecimento de administração necessário para gerir o negócio. Para ele, muito controle era sinônimo de perda de tempo. De um caráter ímpar e de coração generoso, não via como alguém poderia querer enganá-lo. Muitas das pessoas que trabalhavam para nós o idolatravam, mas nem por isso deixavam de roubá-lo. Depois da experiência mal-sucedida com muitos revendedores, decidiu eliminar o quadro de empregados. Éramos só nós, novamente. Nessa época, aos 12 anos, eu e Dayse, a mais velha, com 13, pedimos ao meu pai para assumir a barraquinha na praia. Foi receoso que ele aceitou e viu seu orçamento crescer exponencialmente. Começamos a ganhar muito dinheiro. Não foi pouco. Nossa barraca tinha drinks que outras não tinham, era mais chamativa e exalava o cheiro fresquinho das frutas da estação. Lá estávamos nós, das areias para o mundo. Éramos craques. Fazíamos melhor e ganhávamos mais que os concorrentes. Meu pai, querendo nos ensinar o valor de trabalho e igualdade, pagava a nós o mesmo que era dado ao administrador antigo, coisa em torno de 20% do faturamento. Eu trabalhava com gosto, não tinha férias e nossa temporada era árdua. Enquanto meus amigos guardam lembranças das férias passadas na praia, no sítio, nas viagens, lembro-me do verão em que eu e Dayse decidimos inovar e decoramos a barraquinha com 400 abacaxis. Nós não tínhamos férias, mas quando havia folga íamos ao shopping, cada um com 500 pilas no bolso. Começamos a juntar dinheiro. Transformamos a barraca em um projeto de verão. Quando meus pais se separaram, tínhamos uma condição financeira excelente. Uma parte do dinheiro guardado era resultado de minhas economias com Dayse. Com os 50 mil que havíamos juntado, compramos uma lanchonete. Eu tinha, então, 17 anos.

- Filho, não te quero ver rico, te quero ver feliz e independente.

E sou. E somos. Foi assim que eu e minhas irmãs nunca aceitamos pouco. Pergunto se poderia ser diferente, com a educação que tivemos.

Dona Kátia não era fácil. Do alto dos seus 1,60 de altura, era dura na queda. Frente aos meus pedidos constantes para jogar bola na rua, com o pessoal da Cohab onde morávamos, ela cedeu: “Vá, mas, antes, quero que leia um capítulo dos livros didáticos que seu pai guarda, da época em que dava aula, e me explique o que está ali”. Não deu tempo nem de virar as costas e correr para buscar qualquer publicação que me servisse. Sentenciou:

- Livros de séries acima da sua, sim?

Ela era genial. Era desse modo que eu lia e relia matérias que nem tinha tido no colégio e, esbaforido, ia revisá-las com minha mãe para que, depois de seu aval, pudesse correr à rua.

Outra vez, ao chegar a casa, deparou-se comigo, Dayse e meu pai assistindo ao programa do Ratinho.

- Eu não trabalho que nem uma condenada pra que filho meu fique vendo esse tipo de programa — esbravejou.

Ressentida, arrancou a televisão e a jogou pela janela — assim, sem nem ponderar que alguém poderia estar passando lá embaixo. Meu pai não era louco de contrariá-la. Ninguém era. Quando uma pessoa fala sério, você percebe, intimamente, que aquilo é pra valer. Eu tinha 11 anos e o aparelho só entrou em nossa casa novamente quando completei 17. Não nos fez falta. Líamos mais, estudávamos melhor e conversávamos sobre tudo e qualquer coisa. A catástrofe que é a televisão no convívio familiar não conseguiu nos alcançar. Era uma época extraordinária.

Cabia a nós o mínimo: tornar-nos o melhor que poderíamos ser. Nessas horas, lembro o desgaste emocional e físico dos meus pais, em uma situação quase desumana, e de quão desvairadas eram as circunstâncias as quais se submetiam para que tivéssemos o melhor. E travo.

Em um dos carnavais que trabalhamos como ambulantes, madrugada adentro, no centro da capital, um viciado tentou nos assaltar. “Passa a grana, passa logo, eu tô maluco.” Com uma barra de ferro nas mãos, minha mãe respondeu:

- Eu sou mais louca que você.

E era.

Esse texto faz parte da série Histórias que ninguém conta — publicada quando der na telha ou quando o relato tiver tanta vida que atravessa a preguiça da escritora.
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