A desproporcionalidade de tudo

Eles são poucos (proporcionalmente falando), mas tem muito dinheiro. Consequentemente, tiveram mais acesso à educação, a mais viagens, a mais conforto.

Quando alguns da chamada “classe D” ascenderam, um pouquinho mais de cor foi colocada em lugares onde habitualmente não víamos: aviões, táxis, restaurantes, escolas particulares e… faculdades.

Aí, o problema começou. Deixamos de ser apenas o atendente para ser também cliente. Deixamos de ser apenas quem limpa o chão, mas também quem senta na cadeira.

Deixamos de ser aquela voz visitada nas reportagens pela nossa experiência de anos trabalhando em casa de família e mostrando os segredos da culinária passada de mãe para filha para também sermos quem entrevista, quem fotograva, quem questiona e quem também procura outros tipos de matéria que represente mais a cultura de um povo miscigenado e com orgulho de sua identidade predominantemente preta.

Esta busca por uma identidade preta é recente. Eu, particularmente, tenho problemas em expressá-la com propriedade, porque nossa indignação, ora conformada pela esperança de que “Deus proverá uma solução” e a própria indignação de que “as coisas sempre foram assim e não vão mudar” me fazem ficar cego de raiva diante às injustiças.

Durante toda a campanha para afastar Dilma do governo eu tomei conhecimento das piores convicções do cidadão da tal classe média: Achar que o Nordeste devia ser extinto, que todos que apoiam Dilma, PT ou discordam sobre o Impeachment são burros (no sentido de pouco inteligente e na desqualificação de ser humano), vagabundos, mortos de fome e que só estão na luta por seus benefícios, como o Bolsa-Família.

Porém, a própria tentativa de mudança de governo (constituído agora de forma temporária) vem, muitas vezes, por uma busca da manutenção de benefícios: produtos importados mais baratos, viagens, espaço nas faculdades…
Ou seja: mesmo que tudo o que a classe média diz sobre os pobres fossem verdade, o que estaria em jogo é simplesmente a troca das de pequenas “vantagens” de uma parcela da população pela vantagem de uma parcela menor — vantagens estas que tiveram a vida inteira, perpetuadas por gerações, muitas vezes de forma corrupta.

Há quem diga que quem apoiou o afastamento de Dilma deu um tiro no pé.

Vamos pagar por pós-graduação? A classe média já pagava, com seus diplomas emitidos por instituições duvidosas.

Vamos pagar por uma saúde precária? A classe média já pagava, os planos e seus médicos que algumas vezes usavam a estrutura do SUS para custear tratamentos.

Sofre quem não pode pagar. É assim que se extingue a pobreza. Extinguindo o pensamento e a saúde da pessoa pobre, tornando-a invisível, tirando-a do mapa.

No final, o tal tiro no pé foi dado do segundo andar, passando entre os dedos, atingindo a cabeça dos mais pobres.

Like what you read? Give Estevão Ribeiro a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.