A venda: relatos do campo de batalha

Se você acha que escrever quadrinhos ou livro é difícil, tente vendê-los.

Se você é pequeno — seja um autor, artista ou editora independente, que não tem um capital ou uma empresa grande te dando suporte e colocando seu trabalho em todo o lugar — pode até ter uma boa estratégia de marketing ou mesmo conseguir parcerias interessantes, mas até isso muitas vezes pede um tempo de planejamento que não bate com as contas vencidas e os estoques cheios, seja ele seu armário, a garagem, um quarto ou um depósito.

Neste momento a ida para o varejo — sair da prancheta ou do escritório e encarar seu potencial público consumidor — parece ser a solução mais rápida para fazer aquela grana e equilibrar as contas, ou pelo menos dar uma desafogada até o planejamento de fato funcionar.

A venda direta é para poucos, existem aqueles e aquelas que não nasceram para isso e infelizmente se vêem nessa situação pelo fato de que a situação não está boa muita gente.

Quem não gostaria de estar num evento como convidado, falando para uma plateia e com uma fila de leitores ávidos pelo seu autógrafo por algumas horas? Todos os autores que conheço.

Porém, a realidade de quem empreende num mercado onde poucos leem e quem os fazem preferem o que vem de fora, os brasileiros consagrados e os que sobram são tão bem intencionados que, geralmente, já gastou com a novidade que viu antes de você.

Eu estive em dois grandes eventos num período de um mês: Onze dias na A Bienal Internacional do Livro de RJ três dias depois enfrentei sete na Game XP, dentro de um dos maiores eventos musicais do mundo, o Rock in Rio. Uma puta responsabilidade e desafio que vou tentar descrever o que extraí de experiência deles:

Uma vez no campo de batalha como a venda de literatura e arte em grandes eventos, o pequeno autor / editor independente tem que saber se virar em duas situações:

1 — Quando está no lugar onde o seu público está presente;

2 — Nos lugares onde seu público não está presente.

Acredite: os dois tem graus de dificuldades parecidos para o independente, e eu explico o porquê.

Se você estiver numa Bienal do Livro, por exemplo, você vai estar em um ambiente onde, teoricamente, seu material — livro, quadrinho ou pôster — tem mais chance de encontrar seu público, certo? Certo, mas também você estará disputando a atenção com:

1 — Empresas/livrarias que fazem saldões de livros;

2 — Grandes editoras (e seus próprios saldões de livros);

3 — Fenômeno da vez (produtos da moda geralmente envolvendo celebridades de internet).

Quando seu potencial consumidor chegar perto de você, ele já terá passado — ou “padecido” — por todos esses obstáculos, porque geralmente os estandes estão posicionados de forma estratégica, graças a disposição de investimento, para que atraia o leitor já na entrada do evento.

E o que lhe sobra?

Oferecer preço baixo? O saldão oferece.

Bons livros? As grandes editoras têm.

A presença do autor? Eles vieram para ver Felipe Neto, Larissa Manoela…

Então, não fazer nada disso? Não! Fazer tudo isso!

No estande que a Aquário Editorial teve na Bienal do Livro, tivemos um diferencial:

Preços acessíveis e livros de qualidade, vendidos pelos autores.

Batalha Ilustrada na Bienal

Como a escritora Ana Cristina Rodrigues e eu mediamos a Batalha Ilustrada, tivemos a honra de receber 26 artistas no nosso estande no decorrer dos 11 dias de evento, e a diferença de venda quando tínhamos os artistas no nosso estande agregando o valor do seu autógrafo ao trabalho vendido em relação aos títulos expostos de autores ausentes era imensa.

Ainda assim, havia todo um jogo de cintura, por causa dos elementos já descritos: O leitor já chegava com sacolas com diversas compras, em sua maioria dos saldões de distribuidoras ou das próprias editoras.

Ganhar o leitor consistia em abordar de forma bem-humorada uma pessoa que já havia passado pelo golpe da “revista grátis em troca do número do seu cartão de crédito” e de um bocado de autores como você, desesperado em vender para que as contas fechem.

Eram mais não do que sim, boa parte deles com sorrisos, mas o “Não, obrigado!” à distância ou a puxada no braço da criança interessada pelo trabalho doía na alma.

No final, era muita garganta, explicando cada livro, mostrando o diferencial de ter o autor ou a autora autografando ali, um prêmio de consolo para quem não tinha a pulseirinha ou a senha para ver a celebridade da vez.

E num evento como o Rock in Rio, por exemplo, dá para vender seu livro, quadrinho ou sabe lá o quê?
Dá.

Como já cantou Chitão e Xoró, “O artista vai onde o povo está.”

Estar na Game XP, no Rock in Rio, foi um das experiências mais loucas que já vivi, porque pela terceira edição seguida eu pisava no evento: Em 2013 como espectador, na segunda em 2015 no Backstage do palco Sunset como convidado de um autor nosso e agora, em 2017, como atração do evento. Sim, como atração.

Não estávamos no palco cantando, mas éramos atração para o povo que fugia do Sol no ginásio que se transformou exposição e balcão de feira sete horas por dia, sete dias divididos em dois finais de semana.

Se para gente era algo novo — o local, não o hábito de venda, pois todos ali já faziam feiras geeks — para o público era louco. Eles não estavam preparados para ver um bocado de barbados e moças vendendo ilustrações, quadrinhos e livros — este último só Ana e eu embarcamos nessa aventura.

Alguns, fascinados, mexiam em tudo, olhavam para os pôsteres (prints) e não entendiam para que serviam, outros compravam por impulso, outros desistiam preocupados em carregar os mimos para a namorada durante o show e optaram por pegar contato, seguir nas redes e prometer comprar pela internet, às vezes uma maneira educada de negar nossa abordagem para levar um pedacinho nosso para casa.

Outros foram bem mal educados, os piores exemplos foram os fãs da Lady Gaga, que questionavam o preço de tudo com deboche:

– Quanto está o pôster?

– R$ 10,00

– Credo, moço! Eu perguntei o preço de um só!

Imagine ouvir isso de uma pessoa que pagou R$ 227,50 (meia entrada), tomando chopp a R$ 12,00 e refrigerante latinha a R$ 8,00 reclamando do preço que vendemos nosso material…

Por outro lado, os fãs do Metal, mas acostumados com os pôsteres, estavam dispostos a pagar R$ 20,00 pela imagem em A4 do Slash, a levar livros nas mochilas para o meio do fervo do show e mais: fazer questão do autógrafo.

E assim encontramos pessoas do país inteiro — Algo mais difícil de vermos num evento literário nacional — e ver nosso material sendo levado para os shows em suas mochilas foi algo gratificante — sem comentar o fato de ver os grandes bandas em performances maravilhosas ao término de cada dia de evento, às 21h.

As vendas podiam ser melhores — seremos sempre inconformados com isso — , mas com um país em chamas, é um progresso investir num evento e não sair devendo dele.

Mas a pergunta que persiste, tanto na Bienal quanto no Rock in Rio:

Valeu a pena ir de encontro ao leitor, insistir para que ele conheça o que temos para mostrar?

Bienal RJ 2017
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