Lendo Ana Cristina Rodrigues

Eu ia começar este texto com a frase batida “Precisamos falar de Ana Cristina Rodrigues”, mas achei que tem textos demais começando dessa forma e, na verdade, não precisamos falar. Precisamos lê-la, e cada vez mais.
Ana Cristina Rodrigues é carioca, historiadora, escritora, mãe de um adolescente e de duas gêmeas de um ano recém-completos. Estas duas últimas, além de algumas obras literárias, ela divide a autoria comigo.
Mas peraí, sendo eu pai das filhas dela não estaria pondo em xeque qualquer positivo dessa pessoa? Provavelmente, se os números dela não falassem por si.
Num levantamento rápido no blog da autora podemos ver uma produção de 53 contos, entre mídias de papel e digital, com temas de fantasia e ficção científica.
Ana Cristina é mestre em Alta História Moderna, e seu fascínio pela nobreza dá aos seus textos contornos de fantasia e obscuridade, envolvendo fadas, duendes e principalmente bruxas.
Neopagã, Ana procura retratar em seus textos uma visão não estereotipada das bruxas, dando o destaque devido em muitos dos seus contos.
Mas se o que falo sobre Ana Cristina Rodrigues ainda parece suspeito pela minha proximidade dela, ficará ainda mais pelo que vou dizer agora: Ana já publicou em 25 antologias impressas, mas suas duas únicas antologias de contos foram publicadas por mim.
Então, neste ponto é possível achar que este texto é muito mais uma promoção com motivos pessoais do que um reconhecimento da qualidade do texto da Ana Cristina. Sim, é possível pensar, se não fosse por um motivo:
Não tenho livros da Ana para vender.
Anacrônicas — Pequenos Contos Mágicos, publicado em 2009, teve suas 500 cópias vendidas de mão em mão, até 2010.
Anacrônicas — Contos Mágicos & Trágicos, da tiragem de 1.000 exemplares impressa em 2015, sobraram apenas poucos exemplares junto aos pontos de venda. Cerca de 800 livros foram vendidos no corpo a corpo.
E isso me motivou a escrever esse texto. Convivo com Ana Cristina há 10 anos e vendo seus trabalhos junto aos meus por esse tempo todo.
Não há uma pessoa que amante de literatura fantástica que não se comova ao ler qualquer trecho de “Anacrônicas — CM&T”. Repito: vendi cerca de 800 livros assim, um a um, durante dois anos.
Eu explico quem é Ana Cristina, que é uma das mais influentes autoras de FC e Fantasia do país, muitas vezes a única mulher nas antologias de um gênero literário dominado pelos homens, que fala com propriedade sobre livros publicados no exterior e muitos editores levam em consideração dicas que ela solta nas redes sociais sobre autores estrangeiros (e as vezes nem recebe um obrigado por isso, quanto mais ser paga por consultoria…).
Inclusive Ana esclarece dúvidas sobre direito autoral — é funcionária pública federal e trabalha no Escritório de Direitos Autorais — , escreve sobre produção de escrita, traduz, já editou grandes nomes estrangeiros para a editora Saída de Emergência, ou seja, respira literatura em todo o processo, seja como leitora, como editora, tradutora, revisora e autora.
Sendo esta sua última posição, a de autora, é o que estamos em débito com a Ana. Eu, como pequeno editor e eterno fã, tento fazer minha parte, sensibilizando pessoa a pessoa sobre o trabalho incrível que coloco nas mãos delas. E elas, quando lêem textos como “É tarde!”, o “O mapa da terra das fadas”, “Deus embaralha, o destino corta”, elas constatam cada linha que descrevo aqui.
Precisamos ler mais Ana Cristina Rodrigues.
E existe muito da Ana a ser lido: Neste momento uma nova coletânea está sendo preparada a toque de caixa para ser publicada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
Além dessa, ela tem uma coletânea da série “Anacrôncias” só com contos de Ficção Científica, isso sem contar o seu primeiro romance “Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados”, que está sendo analisados por editoras.
Colegas editoras(es), precisamos que ela seja lida por muito mais pessoas, que acreditem: vocês só têm a ganhar com isso.
