Mais uma partida

Desculpem se pareço monotemático, mas na verdade é mais forte do que eu. Eu queria deixar passar, mas preciso falar de outra grande perda, de um artista que sossegou depois de uma batalha contra a leucemia.

Se Roberto Carlos é o capixaba mais carioca que existe, Milson Henriques é, certamente, o carioca mais capixaba que se tem notícia.

Patota, revista onde estreou a Marly

Nascido em São João da Barra em 1938, adotou o Espírito Santo como morada em 1964. Desde então desenhou, escreveu peças, colunas para jornais e nove anos depois criou a tirinha Marly, a solteirona, sucesso na revista PATOTA e no jornal A Gazeta.

Eu aos 16 anos entrevistando Milson (ao fundo)

Meu primeiro contato com Milson foi uma entrevista para uma tentativa de zine que eu e meus amigos tentávamos fazer.

Milson foi solícito, nos recebeu em seu apartamento e nos falou de seus trabalhos. Até aquele momento ele havia visitado mais de 40 países e tinha lembranças de todos eles.

Mostrou como fazia suas tiras (no formato A4 mesmo, diversas na mesma página, geralmente o suficiente para a semana).

Me chateava saber que o maior artista capixaba não havia nascido lá. Parecia que nós não tínhamos talento. Era um sentimento xenofóbico que imperava em quem não conseguia ainda o seu espaço.

Mas Milson podia ser quem era em qualquer lugar. Preferiu dar aula de teatro para a Terceira Idade no Teatro Fafi, onde tomei aulas ocasionais.

Eu na escola Silvio Egito Sobrinho interpretando um texto do Milson
Filme “A tímida luz de velhas das últimas esperanças”

Aprendi o que pude com esse homem multifacetado. E levei para a escola onde terminei o segundo grau. Ensaiei com alunas da minha turma uma passagem de um dos seus mais belos textos, “A tímida luz de vela das últimas esperanças”, que já virou um filme de baixíssimo orçamento dirigido por Jackson Antunes (!!!) e interpretei texto sobre um mendigo na praça, que falava para as pessoas que não faziam questão de ouvi-lo.

A Milson tentei retribuir a atenção que recebi sendo seu editor, quando eu mesmo não sabia o que era isso. Publiquei a coletânea Bem + Q Tiras, um projeto que visava publicar os personagens de tiras em um formato de história longa. A edição contou com Marly, de Milson, e Luzia, personagem de Alpino.

Minha última conversa direta com Milson foi há sete anos, durante minha visita à Vitória, onde o encontrei numa feirinha na Praça do Namorados.

Posso dizer que nunca o vi sério, falando de assuntos tristes. Milson era um ser mágico, como um fauno, um convite ao riso, ao lúdico.

No começo deste ano tive o prazer de fazer parte do time de tirinhas do jornal A Gazeta, onde ele publica há pelo menos três décadas.

Parafraseando um de seus poemas de Vitória, Meus Carinhos e Descaminhos:

Milson Henriques
Milson é Rico.

Já sentia saudades enquanto vivo, Milson. Nos víamos pouco.

Agora sinto ainda mais.