O cara do não
Eu sou o cara que consegue olhar para uma criança e dizer não.
Digo não há oito anos para o meu enteado e isso não tornou a minha vida mais fácil. O não obrigatoriamente precisa vir com uma explicação.
Por sua vez, a explicação, vem com o descontentamento da criança e poucas vezes você pode dizer tooooda a verdade que, na minha mente, geralmente termina com um mal terrível.
– Você não pode tomar gelado nesse horário porque pode te causar uma inflamação, gripe ou pneumonia que, se não curada a tempo vai te levar para horas ou dias no hospital e então você MORRE.
Então, o não, está tarde para tomar gelado não cola.
Brigo há oito anos para que meu moleque ponha os chinelos, bote uma blusa, saia da frente da geladeira. Ele insiste e, muitas vezes, tem que fazer uma nebulização, e lá estamos nós acordados com aquele motor dos infernos ligado na madrugada.
Eu falo uma versão extensa de “eu te avisei”, mas não adianta. Amanhã será outro dia de luta, e lá estará ele descalço.
Outro moinho que combato sem trégua é o cadarço. Nunca fica amarrado, e ele nunca me deixa ensinar a amarrar. Quero comprar um tênis sem cadarço, mas aí o moinho terá vencido. Acho que posso guerrear um pouco mais.
É lindo ver como ele, ingenuamente, tenta me passar a perna, aos 13 anos de idade. Peço para que ele me pendure uma placa de bobo de uma vez, porque seus rodeios e planos são tão óbvios quanto o seguinte cenário:
Caminho pelos trilhos de olhos fechados, tropeçando nos dormentes. Sinto um tremor. Ouço um apito. Sinto o cheiro da fumaça, o apito ainda mais perto… Eu sei que tem um trem em minha direção. Ele quer me convencer que tem um barco vindo em minha direção.
Mas ele não mente totalmente. Na camisa do maquinista tem um lenço. Nesse lenço tem um barquinho bordado. Tem um barco vindo em minha direção, ele diz. E assim ficamos tentando chegar num acordo sobre quem tem razão.
É difícil ser o cara do não.
Esse cara não é bem visto, não é o popular. É o estraga-festa. E é o iludido.
Tem no coração a grande esperança de que um dia, quando aquela pessoa grande criar seus filhos, lembre do cara do não.
– Um dia você vai me agradecer!
É o que o cara do não espera ouvir. Mas é bobo esperar, porque raramente quem recebe um não vai agradecer.
Recebi e recebo muitos nãos, principalmente quando analisavam materiais meus para publicar. Hoje eu os olho e alguns deles me fazem perguntar onde eu estava com cabeça quando decidi mostrá-los.
Eu nunca agradeci um não de coração. O agradecimento pela atenção sempre foi corrido, cheio de vergonha, com pressa de sair da sala, de desligar o telefone, de responder ao e-mail.
Não se agradece ao cara do não. Ele ganha adjetivos como duro, rígido, mau, difícil, complicado, perseguidor.
– Ele não foi com a minha cara.
O cara do não implica, é quadrado, não gosta de ver ninguém feliz. O cara do não, incompreendido, segue a sua missão de dar valor a cada raro sim, para que o ser humano em construção entenda que nada vem fácil a ponto de se tornar banal.
Ser o cara do não é um saco. Mas alguém tem que ser.
Eu sou o cara do não. Não espero agradecimento. Não ainda.