O formatinho: uma volta ao comercial

Quando eu eria moleque, durante a década de 80 e 90, as revistas que faziam sucesso entre colecionadores não tinha bem um nome específico, mas tinha algumas definições carregadas de história: revistinha, ou ainda Gibi.

As revistinhas no formato 13,5x21 cm pareciam caber confortavelmente nas nossas caixas e gavetas, lugares longe sol e da umidade, ou apenas dos olhos das nossas mães, que achavam aquilo coisa de criança. E era, na maior parte das vezes.

Foi no “formatinho”, definição que não tenho certeza quando surgiu, mas certamente veio depois da necessidade de diferenciarmos do formato “americano” (17x26cm) e do formato “europeu” (22x30cm), que li a maior parte das minhas histórias preferidas, desde infantis (Turma da Mônica e Disney), de super-heróis (Marvel, DC Comics, Fantasma e Mandrake) e os eróticos (Sexyman — Quadrinhos Eróticos). Meus irmãos também consumiam HQs como Tex e Zagor, em formatinho similar, e em outras vezes num formato entre o europeu e o formatinho.

As tiras, como Garfield e Mafalda, também eram impressas em formatinho, com uma diferença: impressas na horizontal.

Analisando o contexto da época, o Brasil passava uma crise incrível, com o PIB baixo e inflação acumulada de 235,13% no ano de 1985, por exemplo.

Lembro-me de comprar, nos anos 1990, revistas com códigos tabelados, porque como o preço do gibi mudava semanalmente e era mais barato trocar uma tabela atualizando os códigos do que etiquetá-los novamente.

A saída era econômica, tanto na aplicação dos códigos como no formato dos gibis, uma vez que as revistas regulares americanas eram vendidas no formato maior e com muito menos páginas (24, em média) enquanto no Brasil tínhamos antologias de histórias, variando de 54 a 80 páginas, com encadernação em grampo ou cola.

Mas quer dizer que não eram consumidas revistas no formato americano? Claro que sim! As edições especiais, sobretudo as minisséries americanas, traziam nas propagandas o formato “de luxo”.

Mas boa parte das iniciativas brasileiras da época, quando não era em formatão, optava pelo formatinho, sobretudo os destinados ao público infantil.

Assim fomos presenteados com histórias do Ely Barbosa e seus Amenoins, os Tutti Frutis e Escovão, pelos Trapalhões (versões adultas e crianças), e a Turma do Arrepio, de Cesar Sandoval, além de um sem números de HQs promocionais das celebridades da época: Leandro e Leonardo, Xuxa, Gugu, Sérgio Mallandro, Faustão… Isso sem contar nas HQs de terror!

Bons tempos…

Menos espaço? Sim… Mais economia? SIM!

O formatinho ainda continua por aí, especialmente para os gibis infantis e mangás, e dificilmente deixará de existir, enquanto a revolução da leitura digital não chegar. Por quê? Maior aproveitamento de papel.

As impressoras gráficas têm uma largura máxima de impressão, que pode variar de modelo a modelo, porém os mais utilizados são o 66x96cm e o 64x88cm.

Cada folha tem um custo. Se o formato do impresso aproveita mal a folha, este desperdício é repassado para o custo da impressão.

Exemplo: No formato 66x96cm cabem 10 folhas do formato americano (17x26cm). Já o formatinho (13,5x21cm), 18 folhas (sem sangria) ou 16 folhas sem esforços, o que renderia em páginas impressas, 20 no formato americano e 36 ou 32 no formatinho.

Isso quer dizer que, se você for fazer uma hq com 32 páginas de miolo (páginas internas, sem contar a capa), presas com grampo, com apenas uma folha é possível fazê-la no formatinho. Para fazê-lo no formato americano, gastaria duas folhas, com um desperdício de papel de 30% de papel, preço este que é repassado para impressão.

Um novo formato? Talvez!

O formatinho é charmoso, mas não dá saudades em todos. Enquanto alguns saudosos sonham com a volta e alguns produtores pensam em como gastar menos para levar os seus produtos para os leitores a um custo atrativo, há uma geração que está acostumada com o formato americano. Uma solução gráfica seria uma ligeira variação do formato.

Na folha 66x96, o formato que cabe o 13,5x21 “folgado” é o 16x24, que cabem, sem nenhuma margem, 16 folhas.

Levando em consideração que a revista de 32 páginas tivesse pouca ou nenhuma sangria (ilustrações para fora da página) ou com fundo preenchido, esta revista, com o refilo (corte com guilhotina para deixar as bordas da revista alinhadas) a deixaria com uns 15,5x23,5, seguramente com 15x24.

Em comparação ao formato americano, com uma redução de menos de 10% de sua altura e largura, a economia pode chegar 50%.

E eu com isso?

Depende: Quem é você? Se você for produtor, é bom saber, para que pense no produto que quer oferecer. É claro que todo artista quer ousar, procurar formatos diferenciados que proporcione aos leitores outro tipo de experiência, porém o quanto você estaria disposto a deixar de ganhar para ver se a proposta funciona? Economizar nunca é um mau investimento e desafia a criatividade.

E se você for leitor, saiba que tudo custa muuuuito caro. Papel é negociado em dólar, a máquina que imprime é importada e a maior parte das gráficas são/estão endividadas e, provavelmente, quando acabarem de pagar a máquina, já terá outra de ponta no mercado (tipo eu trocando de celular, computador e televisão), tinta é caro, o frete aumenta a cada rodovia fechada e as feiras literárias e convenções de quadrinhos são cada vez mais difíceis e caras para se conseguir um espaço.

Tudo o que for necessário para economizar na produção de um produto artístico/de entretenimento é válido.

Você, leito/consumidor, tem direito de exigir qualidade. Podemos oferecer boas, ótimas e talvez incríveis histórias.

Já o formato… será que podemos negociar?

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