Pensamentos de uma guerra anunciada

Estevão Ribeiro
Aug 27, 2017 · 3 min read

Eu estou tentando há algum tempo falar sobre esta capa de 14 de agosto de 2017 do Extra, jornal onde trabalhei e pelo qual tenho muito apreço, sobre a criação de uma editoria de “Guerra” para mostrar o que tem acontecido no rio.

Ao criar a editoria de Guerra para cobrir a crise na violência no Rio de Janeiro, o Extra dá voz a um pensamento que está na cabeça da população, uma chancela a um expressão usado em conversas de bar. E isso é, no mínimo assustador.

Entre as referências que temos atuais de guerra podemos citar a grupos radicais dos países que antes formavam a antiga União Soviética, grupos ditatoriais e revolucionários em países da África e grupos radicais religiosos do Oriente Médio, e em sua maioria grupos que mascaram a violência através de ideologias raciais, políticas e religiosas.

Nestas três ideologias desumanização do agente da violência é engolida, pois a mensagem, a consequência dos atos que essas ideologias carregam é maior do que o fator que levou aquele indivíduo a morrer por uma causa.

Ao ler a manchete só consegui pensar numa coisa: o próximo passo das autoridades públicas é reforçar o coro de que há uma guerra ocorrendo no Rio de Janeiro e, de acordo com as nossas referências de guerra mundo afora, os agentes agentes são nada menos que terroristas.

Então hoje eu vi esta manchete:

Eu havia guardado para mim minhas impressões sobre aquela manchete, mas vou te dizer para onde eu acho que esta daqui vai nos levar:

Uma vez que qualquer criminoso com fuzil deve ser considerado terrorista e qualquer líder de organização criminosa atuante nas comunidades ganhará status de Inimigo do Estado onde a sua morte ou captura justificará “perda calculada de vidas”.

Falo de drones entrando na favela bombardeando barracos como se fossem cavernas. Parece Ficção Científica, mas acontece ali, a um oceano de distância, e rendem filmes e prêmios.

Com o centésimo policial morto no Rio, é impossível afirmar para os parentes dos oficiais mortos de que não estamos em uma guerra(e que estamos perdendo), mas quando veículos e autoridades afirmam tais coisas, criamos um precedente extremamente perigoso.

Vamos pensar da seguinte forma: Como o conservador estadunidense acredita que é possível identificar terrorista?

A grosso modo, juntando dois fatores:

1 — Presumindo o país de origem do suspeito;

2 — Vendo de o suspeito tem cara de terrorista (barba, vestimenta, etc.).

Se estamos em guerra e qualquer criminoso que porte um fuzil deve ser considerada um terrorista, como localizar um terrorista quando ele não portar um fuzil?

Juntando dois fatores:

1 — Ele estará certamente na zona de “guerra”;

2 — Ele terá cara de quem poderia portar um fuzil.

Deixo com vocês as outras considerações…

)
Estevão Ribeiro

Written by

Autor, roteirista e ilustrador. Criador da tirinha Os Passarinhos, premiado por Pequenos Heróis e autor de 2 romances. Editor da empresa Aquário Editorial.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade