Tragédia na rua

Portão da casa

Nessa nova configuração de pais separados, de quinta a domingo recebo minhas meninas em casa, e por isso me apressei para comprar uma portinha para mantê-las em segurança no seu quarto.

O lugar onde vivo agora é mais calmo que a rua em que passei mais de 8 anos em Fonseca. Na rua onde vivi eu passei por poucas e boas;

  • A pedido da polícia eu invadi a casa do meu vizinho para constatar que ele estava morto há pelo menos uma semana;
  • Socorri um colega que caiu do telhado de sua casa — controlei uma crise causada pelo traumatismo craniano até chegar a ambulância;
  • Perdi meu chinelo ajudando o vizinho a tirar a lama de casa, depois que uma encosta derrubou seu muro;
  • E apaguei o incêndio de um sofá no quintal casa abandonada, causada pelos meninos da rua.

Mas até mesmo um lugar tranquilo não está longe das explosões de violência. E ontem foi um dia desses.

Quando cheguei na rua de casa, encontrei um movimento acima do normal, pessoas em volta de uma casa a poucos metros da minha. A multidão de curiosos espalhada pela rua não dava certeza alguma dos fatos.

As informações desencontradas sinalizava que um homem, separado da esposa, entrou na casa a poucos metros da minha e descarregou o revólver nos sogros e tinha a mulher e sua filha de 4 anos sob seu poder.

Pelo movimento, eu achava que as pessoas estavam ali para ver as vítimas, que ele tinha fugido, mas na verdade, a curiosidade mórbida que movia de velhos a adolescentes era ver o cara armado dentro da casa.

Me apressei para pegar a chave, presa entre moedas e um bolso apertado. Tiros são disparados e sou empurrado pela multidão que se dispersava de frente da casa.

Empurro sem querer um velho curioso contra a multidão para chegar no portão, já com a chave nas mãos. Mais tiros, e um homem perdido e confuso não consegue chegar à sua casa, rua abaixo, de onde vem os tiros.

Eu o puxo para dentro do quintal e nos alojamos na cozinha da vizinha, toda azulejada. Mais tiros, água com açúcar para a vizinha, rezas, gritos de um homem enfurecido.

Tiros com a polícia, gritos, três ambulâncias e cinco viaturas.

Uma vez seguro, ligo para a ex-esposa. Aviso que vou atrasar para a consulta com as meninas. A notícia do suicídio do assassino chega nos minutos seguintes. A mulher e a filha ficaram fora de perigo.

A rua continuou cheia e palco de cada vez mais tragédia, a medida em que chegavam parentes. A essa altura já estava em casa, tentando esquecer o que aconteceu.

Mas era impossível, pois a vizinha cantava louvores para acalmar o bisneto de 3 anos e abafar os gritos de quem recebia a notícia da morte do casal.

Uma chuva tímida caiu por cinco minutos. Eu chorei bem mais que isso.

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