“What a feeling” e as meninas dos tempos de escola

Quando Flashdance saiu nos EUA eu tinha quatro anos. No Brasil o filme chegou na minha idade escolar, assim como outros filmes dançantes: Dirty Dancing e Footloose, além de “Quem é essa garota?”, com Madonna, símbolo do proibido para as adolescentes.

Imagine ouvir hits como “Like a virgin” e descobrir que o título queria dizer “Como uma virgem”. Geralmente quem nos fazia revelações do tipo era alguém mais velho querendo nos ver ruborizados. E conseguiam uma cara incrédula no começo seguida por uma vergonha por cantar aquilo aos plenos pulmões sem saber o que significava.

Madonna fazia sucesso com as músicas “polêmicas” para adolescentes, como “Papa don’t preach” (onde ela dizia que iria manter o bebê que carregava em seu ventre, um escândalo nos anos 80), mas outras músicas passavam batido e embalavam as festinhas, como “True Blue”, “La isla bonita” e “Borderline”.

Não era para menos que algumas músicas — tanto de temas de filmes quanto as da Madonna — paravam no pátio da escola.

Era comum e de certa forma mágico ver aquele grupo de amigas, onde a mais talentosa — ou simplesmente quem tinha um videocassete e conseguia gravar filmes e clipes — ensinava às outras garotas coreografias até mesmo inadequadas para à idade.

E então, em alguma festa da escola, lá vinham as meninas em fila, com uma roupa pensada para aquele momento — todas combinando o quanto podiam, com alguns detalhes feitos em papel de seda e lantejoulas — ao som da agulha batendo fortemente no disco, devido à falta de experiência da professora.

A música começava, elas acertavam, erravam, transpiravam, venciam a vergonha, muitas vezes as gargalhadas das invejosas e as provocações dos meninos, e dançavam.

Durante três ou quatro minutos elas tinham total atenção. A mais bonita, a que tinha as curvas escondidas até então descobertas pelo figurino, a que dançava melhor, a que nunca havíamos visto com maquiagem, a certinha, a que nunca imaginávamos ser tão bonita, a desengonçada, a gordinha, todas eram vistas vencendo seus medos, em nome de uma paixão, de algum companheirismo e, talvez, uns pontos a mais no fim do ano por participação.

Terminavam ao som de aplausos e algumas gracinhas, se apressavam para sair do pátio e arcavam com os louros e com as eventuais piadas.

Umas achavam que podiam fazer aquilo a vida inteira: vencer os medos
Outras achavam que podia fazer aquilo a vida inteira: Reforçar o laço de amizade
Outras, poucas, raras… pensavam que podia fazer aquilo a vida inteira: dançar.

Tenho certeza de que essas garotas que eu via na minha infância encarar seus medos por motivos que só elas poderiam dizer me fizeram ser mais firme nos meus sonhos.

Não dá para saber quantas delas levaram aquelas apresentações adiante, ou se aquela vibração compartilhada serviu para elas.

Eu sei que elas foram firmes em suas missões.

Quer prova melhor do que ver um homem de 38 anos falando de algo ocorrido há mais de 30 anos?

Se você dançou na escola, se apresentou de alguma forma, pode ter certeza de que alguém se lembra de você.

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