Relógio aos tubarões

Seu Domingos era o dono do tempo. Se alguém precisasse das horas era a ele que recorriam. Nunca estava atrasado ou adiantado. Sempre sabia a hora exata.

Ele tinha uma loja de relógios, a maior da região. Trabalhava de segunda a sábado, doze horas diárias “milesimamente contadas” – como ele mesmo gostava de dizer – por seus inúmeros relógios.

E não só o trabalho era cronometrado. Ele sabia que horas havia nascido, a quantas horas estava sem comer, quanto tempo levava para limpar a loja e, diziam, vejam bem, que gostaria que em sua lápide constasse em que horas ele havia morrido.

Acontece que o Seu Domingos precisava tirar férias, já estava atrasado para isso. É que o tempo estava curto, pois ele fazia horas extras.

Foi então que ele decidiu que estava na hora. Iria tirar duzentas e quarenta horas de férias. Seu destino seria a Inglaterra, queria conhecer o famoso Clock Tower (jamais aceitou “Big Ben”, e ainda não se acostumara com “Elizabeth Tower”).

Chegou ao aeroporto pontualmente, é claro, mas descobriu que o vôo atrasaria. Isso ele não suportaria! Conseguiu que o colocassem em um avião que partiria na hora certa.

Porém, durante a viagem houve um contra-tempo, o avião teve uma pane no sistema – os ponteiros morreram – e eles caíram.

Seu Domingos acordou assustado, tirou o relógio do bolso e conferiu as horas: Quatro e sete da tarde. Olhou em volta e percebeu que estava sozinho em uma ilha. Caminhou durante uma hora e trinta e sete minutos explorando o lugar. Irritou-se.

Maldita hora que resolvera tirar férias! Maldita hora para querer chegar na hora! Se tivesse esperado o avião certo, estaria no lugar certo, e a hora, a hora que se danasse!

Nos primeiros dias ele acordava às oito, caçava peixes durante trinta e três minutos, nadava por uma hora e explorava a ilha durante duas horas e cinquenta e um minutos divididos em dois turnos.

Depois de quatrocentos e oitenta horas, percebeu que as horas não importavam ali.

Poderia fazer o que quisesse, na hora que quisesse.

Jogou o relógio no fundo do mar.

Decidiu que era hora de ter todo o tempo do mundo.

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Yuri Manzi