A vida me obriga a escrever isso

Entrar em uma Universidade Federal sempre foi para mim um objetivo, desde muito nova eu tracei meu projeto de vida e esta etapa era imprescindível para o desenvolvimento harmônico de tudo. Eu sempre fui do tipo que usualmente vive em um mundo próprio e fantasioso, socialmente isolada — devo assumir que por escolha própria — e apaixonada por cinema e literatura.

Todavia, nenhum desses elementos e afeições tornou minha escolha de curso mais fácil. O ensino médio foi uma experiência desgostosa e conturbada por estar confusa comigo sobre minhas aspirações profissionais e aptidões, o que tinha definido em mim era meu interesse em tornar da minha profissão um trabalho social.

Minha primeira opção foi engenharia militar — na esperança de que eu fosse capaz de transformar o arsenal bélico com projetos de armas menos nocivas, com propriedades que ao invés de matar seriam capazes de paralisar, fazendo assim diminuir o número de inocentes mortos em conflitos todos os dias pelo mundo — para esta prova eu me dediquei sem descanso por oito meses, todos os dias estudando até as quatro da manhã e me privando de uma vida social.

Eu me classifiquei positivamente em duas etapas, dentre as treze mil mulheres que concorreram as quarenta vagas, porém não foi o suficiente para garantir a classificação final. Uma semana após a última lista classificatória foi postada uma parcial com a comparação entre as médias de pontos entre os candidatos homens e mulheres, resultado: eu estava em 100º lugar do total das 40 vagas para mulheres e das 500 para homens. Fiquei absurdamente devastada.

Ainda abalada por esse vestibular eu prestei o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), aonde apesar de todo o choque emocional eu fui muito bem e podia desfrutar do prazer de escolher um bom curso e uma boa universidade, correto? Errado! Com a família aumentando e as contas apertando eu fui “recomendada” a fazer um curso em casa, ou seja, na região que moro.

Nesta hora eu estava um tanto alheia as pessoas e a pressão delas por escolher um curso com boa indicação no mercado de trabalho e decidi dar uma de louca e seguir um sonho antigo de trabalhar com cultura audiovisual e literatura, o mais próximo disso ao meu alcance era Comunicação Social com habilitação em jornalismo e foi o que eu escolhi.

Ingressar em um ambiente como o do ensino superior foi uma experiência excitante, para mim ao menos foi como o despertar de uma longa inércia social, na qual eu estive imergida por toda a minha vida. O universo de oportunidades e descobertas que se abriram a minha frente eram multicolores e infinitos, poder presenciar e experienciar tantas realidades e possibilidades diferentes transformou meu ser definitivamente.

De certa forma o meu projeto de vida continuou, foi transformado assim como eu, mas vive. Subitamente não era mais a fantasia que me atraía a industria cultural, mas a crítica a ela e a realidade de poder fazer dela um instrumento de transformação social.

Além de acadêmica eu me propus a estar presente em entidades estudantis dentro da universidade que me proporcionaram poder idealizar e coordenar quatro projetos que levantam bandeiras sociais e ambientais. Além de estar em congressos e eventos aonde acontecem os mais diversos intercâmbios culturais, que em muito acrescentaram a minha personalidade e caráter.

Com o passar dos períodos e a evolução do curso eu tive a oportunidade de me testar em quanto jornalista e cidadã em grandes eventos como um festival internacional de cinema e uma greve estudantil. Acredito que ambas experiências contribuíram para a idealização de um campo de atuação ao qual eu me impulsiono todos os dias por meio de uma luta incansável por conhecimento e exploração de potencial.

Agora aos dezoito anos, e no quarto período de oito, eu me vejo mais próxima do meu objetivo de vida, mais próxima de mudar o mundo. E começa tudo em mim, no que eu cultivo e na minha vida, esta semente em forma de texto é apenas a primeira, espero que desfrutem dela.