Conhecimento é potência
Ensaio sobre saber e individualidade
O insight para esse texto foram uma provocação de minha irmã e a fala de um colega sobre “largar o osso e focar no final da faculdade”.

Domingo passado, dia 03 de novembro de 2019, foi o primeiro dia do Enem 2019. Me pus a refletir sobre o por que desse exame ainda mexer tanto comigo.
Por que ver o tema “democratização do acesso ao cinema no Brasil” me deu tantos arrepios na barriga e inquietações.
Mais que nostalgia.
Há alguns anos atrás, todo o meu conhecimento estava confinado em livros e suas teorias.
Para além da biologia, da matemática, da química e da física, que tanto me atormentavam e que eu tanto me esforçava para domar, havia o alento da literatura e da gramática. Sem contar com a história, amor de outras épocas (que renderia outro texto que não esse).
A estrutura da palavra, ao mesmo tempo instrumental e metalinguística, me empolgava muito. Assim como os gênios que, brilhante e extraordinariamente, criaram obras ontológicas por meio elas.
Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Machado de Assis eram ícones acessíveis. Inspirações cotidianas.
A minha relação com a faculdade de Direito da UERJ, por outro lado, me fez ter uma relação inédita e esquisita com esse tal de conhecimento.
Antes, o conhecimento cabia numa redoma. Palpável e concreto. As teorias eram, praticamente, imutáveis. A lei da inércia jamais passaria, da noite para o dia, a ser a lei do movimento.
E é assim que as coisas são. Ou eram, para quem eu era naqueles tempos.
Hoje, e já há um tempo, me vem uma pontinha de insegurança no peito. Não consigo mais saber absolutamente tudo e todos os detalhes de tudo que aprendo.
O conhecimento jurídico é uma árvore com ramificações infinitas. Difícil e exaustivo. As leis mudam a todo tempo, os juízes dizem coisas contraditórias entre si e os institutos são rebuscados.
Nada há de enxuto no Direito, ninguém há de negar.
Mas para mim, é mais do que isso. Muito mais do que as fontes clássicas do Direito – lei, doutrina, jurisprudência, costumes e usos gerais – são as pessoas brilhantes com quem convivo ao longo de minha graduação.
Os professores e alunos fora da curva que me mostram que é praticamente impossível saber tudo, mas é perfeitamente possível ser excepcional naquilo que gostam.
Mas as teses inovadoras e os debates riquíssimos não vem de mentes inerentemente brilhantes. O exponencial crescimento acadêmico tem a sua beleza inigualável.
Talvez as coisas não sejam tão diferentes assim, afinal.
O Enem foi, para mim, uma grande experiência de sacrifício pessoal. Meu ano de 2014, no auge dos meus 18 anos, se resumiu a essas 5 letrinhas: E-N-E-M. O objetivo era esgotar os livros e cadernos de questões, arrasar na prova e me superar. Festa de formatura e kalango não estavam nos planos.
Aconteceu. E agora?
A universidade me revelou muitas das minhas limitações pessoais. Eu tinha, sim, dificuldade para aprender algumas coisas. Dúvidas incessantes e certezas infundadas. Tópicos incompreendidos e confusão mental. A imperfeição se tornou parte constante do meu aprendizado.
Mais do que isso. Além de gradualmente aceitar essas limitações, fui descobrindo uma pontinha de desejo. Vontade de aprender. Interesse profundo em algumas matérias específicas. Voracidade acadêmica.
Essa vontade jamais foi ilimitada. Nem tudo me interessa, nem tudo é prático ou usual. Estudamos institutos extintos que jamais aplicaremos. Por amor ao debate.
Em outros campos, sobra paixão e contemplação. Identificação e realização. Sem desconsiderar o fator realidade.
Saber menos não é ser menos potente. Não saber tudo não é sinônimo de castração. Desconhecimento não se traduz em submissão.
Conhecimento é potência. Capacidade de produzir, agir, criar. Direcionar energia em prol de um interesse.
Ninguém será capaz de domar as vicissitudes e nuances do conhecimento. Seja no Enem, na faculdade ou na vida.
