Self.
Ou a dor e a delícia de ser quem se é.

De vez em quando, me vem uma sensação de angústia e um aperto no peito.
Não sei de onde.
Mas sei que esse sentimento habita alguns ambientes que, logo de cara, eu carimbei como “tóxicos”, “desconfortáveis”, “competitivos” ou “invasivos”.
A certeza inabalável de que não se pode confiar em nada e em ninguém. Num piscar de olhos, a chance de tomar uma facada – não se sabe de onde e nem por que. A segunda pele da ganância e da maldade que reveste todos que nos cercam – e que todos deveriam perceber.
A segurança de não dar confiança a ninguém. A recíproca é verdadeira: confiar significa entregar uma peça preciosa de si ao outro; esse utiliza a peça conforme lhe convir – até em desfavor daquele.
“Alguém que depois não use o que eu disse contra mim.”
E mais: caso seja uma mulher, dar confiança pode ser o fim dela. Um caminho para o desfiladeiro. Para os cristãos, é a estrada do pecado. Para a vida, dar esse bem valioso poderia “provocar” abusos de homens. Especialmente, pela infundada confusão entre interesse e consentimento – inseparáveis.
Mas esse não é meu ponto aqui. Minha questão é que essas regras me parecem um tanto quanto anacrônicas hoje.
Muito se perde pela falta de troca. O diálogo, a convivência e o papo jogado fora deveriam ter um lugar melhor à mesa. Essas regras podem deixar a mesa vazia, e ainda por cima cheia de facas apontadas para os céus.
“Põe mais um na mesa de jantar que hoje eu vou prai te ver e tira o som dessa tevê pra gente conversar.”
Não me entendam mal: a intuição e a voz selvagem devem andar juntas da mulher. A violência é constante e não podemos descansar.
Mas preciso me desvencilhar desse peso constante que me ronda em inúmeros ambientes. Como mulher, seguirei atenta. Como gente, feita de carne e osso, quero o prazer de descobrir as gentes e seus jeitinhos.
“Onde queres revólver, sou coqueiro”
Valorizar o tempo jogado fora. Desperdiçado. Leite derramado. Esgoto despejado à céu aberto. Água indo em direção ao ralo.
A leveza em me desvencilhar dos fardos invisíveis. A certeza de que me aproximar dos meus me faz mais minha. Sem desgrudar da chave da consciência.
Self. Em mim, em vocês, em nós. A beleza de estar entre as gentes. A dor e a delícia de ser quem se é.
