estávamos no quarto ¶ você falava sobre trapézios ¶ achou que eu estava desatenta quando sorri vagamente ¶ foi à cozinha preparar chá vermelho ¶ vi que usava a caneca com a pintura do van gogh, a mesma que sempre me remete ao seu texto “soteriologia” ¶ balbuciei soteriologia, uma palavra que você faz a sonoridade sor agradável ¶ você havia ganho a caneca na noite que definiu como o primeiro melhor dia de sua vida ¶ logo o vi de volta ao quarto, sentado na cama e disposto a ler um livro aleatório ¶ observei o seu passar de olhos pelas linhas como quem tenta adivinhar quais seriam seus pensamentos decorrentes da leitura ¶ você estava absorto ¶ encarei o livro do klee que estava numa pilha sobre a escrivaninha ¶ com o livro em mãos, folheei as páginas e atraí sua curiosidade ¶ deixei o livro aberto sobre a cama numa página aparentemente aleatória ¶ a pintura ocupava a página inteira ¶ você alternou entre observar o que eu fazia e grifar alguma linha da página do desconhecido livro que lia ¶ peguei o caderno de capa verde recém-comprado e abri na primeira folha em branco ¶ eu procurava por um lápis ¶ meses atrás você havia me dado um lápis para desenho, que carrego até hoje em meu estojo ¶ com a ferramenta em mãos, eu reproduzia a obra de klee e a mesclava com a imagem que já tinha pronta em mente ¶ eu fazia traços definitivos, mas fracos, e pouco a pouco dava contornos mais verossimilhantes ao desenho ¶ imaginei você sorrindo com canto dos lábios ¶ você observava o que eu estava desenhando ¶ um simples exercício de imitação transformou-se num diálogo metalinguistico ¶ finalizei acrescentando uma personagem a mais ¶ ela portava um guarda-chuva ¶ juntos, os protagonistas do desenho desafiavam a gravidade ¶ guardo comigo um trecho de klee que fala sobre a vida e a arte: “ficar de pé apesar de todas as possibilidades de cair” ¶ guardei o caderno e dormimos abraçados naquela noite ¶ você não sabia que no dia seguinte a folha estaria arrancada e que ela se transformaria num bilhete de geladeira ¶