Ocupação Solar das Artes

Carta-Manifesto Aberta

Nós, residentes de todas as ruas, ocupantes no momento do Solar da Beira no “complexo” Ver-o-Peso, viemos por meio desta declarar que não é por meio desta que nossa indignação será realmente exposta, porém este é o meio mais claro de alcançar pessoas e sobrepor qualquer intenção questionável de meios de comunicação de massa sobre nossa ocupação de vivência artística/política.

Relatamos aqui a experiência de estarmos construindo um espaço de experimentação, encontro e compartilhamento, onde liberdade de pensamento e de enfrentamento são sinônimos, ocupando um prédio de responsabilidade da Prefeitura Municipal de Belém, que é patrimônio tombado em todas as esferas públicas e encontra-se em estado de total abandono. Espaço que já está sendo desmontado enquanto ocupamos, para ser lacrado, e permanecerá ocioso aguardando reforma sem data prevista para este ano, sujeito à degradação e especulações de transferência para a iniciativa privada.

Esta é mais uma ocupação do Solar da Beira, pois o espaço já é ocupado por trabalhadores do Ver-o-Peso e por dependentes químicos, além de servir de morada para pessoas sem casa e animais abandonados e descanso para funcionários da Secretaria Municipal de Saneamento. Todos nós, ocupantes, corremos riscos de insegurança e de contaminações devido a extrema situação de descaso e falta de assistência dos responsáveis pelo local. Além do uso do crack ser tratado equivocadamente pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar, as secretarias de saúde municipal e estadual ignoram a situação — estas que são as verdadeiras responsáveis em reduzir esses danos.

E ainda, a situação estrutural do prédio sem energia elétrica, com algumas paredes ruindo, muitas tábuas soltas no chão e a falta de limpeza atraindo animais de várias espécies nos fazem sentir literalmente a decomposição social e patrimonial da cidade — o que poderia ser amenizado se a manutenção e a vistoria anual do Solar da Beira fossem realizadas pela Prefeitura de Belém.

Estas são algumas das situações que conseguimos perceber residindo por alguns dias no local e tendo que arcar com iluminação, sinalizações, equipamentos de segurança e vistoria de instalações provisórias. Para além disso, nossas inquietações têm gerado força coletiva e colaborativa que nos fazem sentir organicamente alguns processos importantes para debates, cobranças e ações.

Então, escolhemos o Solar da Beira, emblema da falência da administração pública, para representar também a ausência das políticas culturais dos governos estadual e municipal de Belém. Estamos construindo neste espaço, com nossos corpos e pensamentos, sem patrocínio ou qualquer ajuda de custo de instituições, a cidade que queremos, assim como transformando o local negligenciado em um espaço livre para cultura. Acreditamos no empoderamento por meio da mobilização e nas conexões de uma sociedade civil auto-organizada. Nos ocupando com a cidade. Nos ocupando da cidade. Por isso tantas ações ocorrendo em horários diversos e muitas vezes simultaneamente, uma programação aberta e em fluxo constante, atividades de aprendizagem e reflexão. O Solar Das Artes reúne mais de 110 pessoas de forma totalmente aberta, sem editais ou curadoria, pois questionamos também os modelos tradicionais, limitantes e excludentes de salões de arte de nossa cidade, bem como a falta de espaços de fomento, experimentação e mostra de novos artistas e linguagens.

Nossas oficinas, aulas públicas, rodas de conversa e vivência sensorial estabelecem diálogos e celebram a diversidade, tendo como maior desafio — pensado e praticado diariamente — a integração entre nós, os já ocupantes do Solar da Beira, os demais trabalhadores da feira e a população em geral, que a cada dia durante nossa permanência aqui nos deixam claro a indignação, o pesar e a preocupação com o contexto atual de Belém e, claro, do Ver-o-Peso. Ocupamos o Solar da Beira e questionamos do poder público o porquê do abandono e da subutilização de incontáveis espaços em Belém. Queremos uma política de saúde pública para as pessoas em situação de risco nas ruas, inclusive no Ver-o-Peso. Queremos política cultural e uma agenda realmente efetiva, que contemple iniciativas populares e não apenas a iniciativa privada fundamentada nas leis de incentivo — estas também ameaçadas pela crise administrativa do governo. Queremos mais espaços de formação e experimentação artística, que contemplem a periferia. E provocamos agentes culturais e pessoas de outros segmentos da sociedade a ocupar, se contaminando dos sentidos da cidade e ressignificando esses espaços.

Nós, resistentes de todas as ruas, ocupamos no momento o Solar da Beira no [complexo] Ver-o-Peso.

Solar da Beira, Ver-o-Peso, Belém, 14 de maio de 2015.

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