(pontas da) Amazônia, de Claudia Andujar e George Love

por Laura Del Rey

A projeção das páginas do livro Amazônia (1978), de Claudia Andujar e George Love, está no corredor esquerdo da Casa da Frontaria Azulejada. Dialoga, no espaço, com a instalação Amazogramas, de Roberto Huarcaya, e Beyond Zero 1914–1918, de Bill Morrison.

Os três trabalhos abordam, de maneiras distintas, o tempo e o desgaste físico das imagens como elemento que se incorpora à narrativa.

Amazônia, de Claudia Andujar e George Love
Amazônia, de Claudia Andujar e George Love

No livro de Andujar e Love, os artistas trabalharam com pontas de filmes — que às vezes estão queimadas, às vezes “vazias” e outras vezes resguardam mais as imagens. Passadas tantas décadas, impressiona a contemporaneidade desta decisão; parece conversar diretamente com a fala de Maureen Bisilliat na Arena ZUM de 15 de outubro: “O documentarista vive sempre angustiado pelo que não captou. Acho que somos meio desagradáveis para os outros, porque estamos sempre descontentes. Como lidamos com o imprevisível, queremos captar as entrelinhas das coisas. A imagem quando não é direta (como por exemplo a imagem de guerra), tem que tentar ir além das palavras”.

Cabe ao artista, parecem dizer Maureen e Amazônia, ir atrás do que não quer ou não pode se mostrar ou narrar. Do que fica à margem das histórias oficiais — como os índios, por exemplo. Deixar aparecer a ponta é deixar transparecer o fotográfico, também; evidenciar as escolhas, as falhas e os caminhos.

Chegar à colorida projeção do livro em seus tons verdosos, após cruzar os longos painéis preto e branco do peruano Huarcaya, é uma experiência a não perder no Festival. A construção escolhida para esta tríade de projetos (a Casa da Fronteira Azulejada) também é, por si só, um monumento às texturas e histórias do tempo.