encerramento Arena ZUM: Oscar Muñoz conversa com Horácio Fernandez

por Laura Del Rey

A última Arena ZUM do Valongo Festival 2016 (Por trás do espelho: o campo expandido da fotografia) foi uma conversa de Horacio Fernandez com o artista Oscar Muñoz.

Línea del Destino, de Oscar Muñoz

O colombiano, que vem de uma formação em Artes Plásticas, mais precisamente o desenho, mostrou para uma plateia lotada os diversos trabalhos que desenvolveu nas três últimas décadas tendo a fotografia como suporte e tema.

Algumas das preocupações centrais do trabalho de Oscar atravessaram boa parte dos projetos, debates, exposições e workshops do Festival: o que é ser um produtor de imagens hoje? Como dar fôlego e relevância a temas já exaustivamente problematizados? Para onde vamos com a arte, agora? Que destino terão as enormes famílias de imagens produzidas — e compartilhadas — por amadores e profissionais? Quais sobreviverão? O que são e como trabalhar com documentos? Quais linguagens e plataformas podem ser cruzadas, ampliando os limites do fazer visual?

Thyago Nogueira no encerramento da Arena ZUM | fotografia de Rodrigo de Oliveira

Pensar fotografia desde sempre implicou pensar o tempo, os arquivos e a capacidade do meio de fixar ou perder instantes. A tecnologia avança, os suportes são outros e a pergunta sobre memória e perda, ao invés de se esgotar, abre mais e mais margem a trabalhos que investigam a questão. Paulo Fehlauer, no trailer de seu projeto Postais Para Charles Lynch (que antecedeu a mesa de debates), falou sobre a crise da representação e a crise da imagem.

Paulo Fehlauer com o projeto Postais Para Charles Lynch, do Coletivo Garapa | fotografia de Rodrigo de Oliveira

Como frisa Horácio Fernandez, Oscar tem tido um papel especial neste debate. “Arte implica claramente algo muito difícil e muito complexo; implica ampliar nossa experiência da imagem e do olhar. (…) A maneira como o termo memória é usado hoje faz parecer que tudo é importante, que tudo se guarda, mas obviamente não é assim. Felizmente nos lembramos de algumas coisas e esquecemos de milhares de outras. Oscar trabalha sobre a memória, mas uma memória mais complexa”. Oscar trabalha sobre a memória que reflete, assume e estetiza as perdas.

Jordi Burch, que também mostrou um trailer de seu trabalho alguns minutos antes do debate, traz a mesma preocupação desde o nome do projeto: A Duração do Rastro. O artista portugês comenta que “existe um jogo de hierarquia complexo num espaço habitado, onde a tensão entre o habitual e o particular se manifesta de maneira exemplar. Lançar luz sobre alguns vestígios e objetos escolhidos pelos moradores faz pensar sobre a nossa maneira de partilhar o espaço”.

Não se trata mais de estar no lugar certo e na hora certa. As perguntas mais exatas talvez sejam as que abraçam todo o trajeto. As imagens produzidas por Oscar, por exemplo, se alimentam do primeiro daguerreótipo que registrou figuras humanas (Boulevard du Temple). O desaparecimento completo dos personagens da cidade (devido ao tempo de exposição da placa) é o start das perguntas do artista. Na emblemática fotografia de 1839, a única pessoa distinguível (em uma rua muito movimentada) é um homem que lustra seu sapato; os outros não se vêem.

“Tenho um interesse especial na fixação. No momento exato em que uma imagem ou um texto se solidifica e se transforma em um documento que vai permanecer. O que se fixa e o que não se fixa. Reflito muito sobre isso”.

trabalho de Oscar Muñoz

Outra imagem que perpassa os trabalhos de Muñoz é o autorretrato do químico Robert Cornelius — pelo que se sabe, o primeiro autorretrato da história. Oscar, em seus projetos, frequentemente alude à famosa imagem, e testa os limites e poderes dos autorretratos em projetos como Narcisos e o lindíssimo Línea del Destino. Neste segundo, o colombiano cria (e deixa esvair) seu rosto no reflexo da água que tem na mão. Um autorretrato que dura alguns segundos e desapareceria pra sempre se não fosse o seu registro em vídeo.

A obra do colombiano é marcada por um uso preciso de materiais que potencializam o resultado estético. Além do trabalho acima, água, pó de carvão, gordura, vidros e espelhos aparecem em Aliento, Ciclope e El Editor Solitário, por exemplo. O gestual do desenho, também presente, marca o cruzamento entre as artes plásticas e o fotográfico; Muñoz propõe instalações, projeções, performances e, algumas vezes, registros em vídeo.

Aliento, de Oscar Muñoz. O espectador sopra o vidro e aparecem imagens de obituários; quando perde o fôlego e deixa de soprar, é seu retrato que consegue ver no espelho.

“O calor da vida ressuscita esse fantasma por um segundo. As imagens de Oscar nascem, crescem e morrem; não podem se manter” (Horácio Fernandez).

Outro trabalho de destaque é Ciclope. O vídeo parte da crença (quase unânime, antigamente) de que a última imagem vista por uma pessoa antes de morrer se fixaria à sua retina. A ação de Oscar é colocar imagens (impressas em pó de carvão) em uma pia repleta de água e deixar que seus vestígios físicos escorram pelo buraco. “Vejo aqui uma coisa hipnótica, que ao mesmo tempo é um pouco inútil, porque este buraco leva as imagens e não podemos retê-las. (…) Gosto da ideia de pensar que pó de carvão e água, os materiais utilizados aqui, são a origem da tinta”.

Ciclope, de Oscar Muñoz

A dificuldade de reprodução das obras e a necessidade do seu registro em vídeos levantou diversas perguntas na plateia. Se o trabalho lida, justamente, com a incerteza, a fugacidade e contra a expectativa impossível de guardar pra sempre, por que tentar reter os rastros nestes vídeos? Horácio Fernandez arrisca: “A fotografia pergunta a ela mesma para o que serve. E se as imagens digitais são recebidas e guardadas na nuvem, estão de certa forma na água — e o experimento poderia ser repetido, não?” (risos). Oscar complementa: “A imagem na era digital está mais frágil e suscetível, mas os problemas são os mesmos. Quero me situar no momento crítico em que algo pode ser ou não ser; o permanente, o impermanente, a vida e a morte. Por isso considero a experiência tão importante: estar presente em um momento, havê-lo vivido”. Pensei imediatamente nas selfies feitas com a função de “estive aqui” — pra onde elas, também, irão? Como destacou Ivana Bentes, não sabemos, daqui poucos anos ou milhares de décadas, quais imagens serão importantes e quais não.

Maureen Bisilliat, na plateia, especula: “Será que não haveria uma emulsão que pudesse conservar um pouco o movimento das coisas? Será que as fotografias não poderiam reter um pouquinho de vida e nos fazer gestos alguns anos depois?”

Vou acabar com esta pergunta.

Re/trato, de Oscar Muñoz