Feminismo e arte: uma conversa com Laia Abril e Cris Bierrenbach

por Felipe Abreu — Editor da OLD

Um dos pontos mais admiráveis da primeira edição do Valongo Festival é seu interesse pela expansão das discussões realizadas, não se restringindo apenas a falar de técnica ou processo fotográficos, incluindo questões que perpassam a produção artística, como a relação entre arte e política, mercado e questões de gênero e discurso.

Cris Bierrenbach

O terceiro dia de Arena Zum reservou uma discussão especialmente interessante entre Cris Bierrenbach e Laia Abril, falando de suas respectivas produções com um enfoque em questões feministas e aborto. Cris apresentou sua trajetória fotográfica, colocando como ponto central os atos simbólicos que representam ser uma mulher em uma sociedade especialmente machista e ainda pouco interessada nestas questões.

Cris Bierrenbach

A produção visual de Cris tem como processo central o seu posicionamento como ícone do feminino, usando seu corpo para representar a vida e os desafios da mulher. Diversas de suas criações tem como procedimento o convite ao espectador para se ver dentro da obra, seja por questões materiais, como reflexos e espelhamentos, ou por uma questão simbólica, que faz do corpo de Cris um exemplo para representar todas mulheres.

Laia Abril

No trabalho de Laia Abril — jovem fotógrafa espanhola que já recebe grande destaque — ela não se coloca como representação da mulher, mas traz questões centrais de direitos políticos e de saúde feminina para o centro da sua obra. Na Arena Zum Laia comentou seu mais recente trabalho, On Abortion. A série faz um complexo levantamento de questões ligadas ao aborto em todo o mundo. Laia tem um processo de trabalho bastante intenso, em que a pesquisa cria uma profusão de informações, que são usadas para garantir a profundidade dos temas apresentados pela fotógrafa.

Em On Abortion, Laia faz um reconstrução complexa de uma série de questões ligadas ao aborto, trazendo personagens, práticas e consequências deste procedimento em boa parte do mundo ocidental. Impressiona a velocidade e profundidade de execução dos trabalhos da jovem fotógrafa e editora, que cria estruturas precisas para falar de temas super delicados.

Laia Abril

Desta riquíssima discussão fica a alegria de ver duas grandes artistas apresentando um discurso expandido, intenso, que fala muito mais das consequências e desejos de sua produção do que de sua criação em si. Mais um grande acerto do Valongo e da Zum, neste intenso ciclo de conversas.