Na estrada: histórias e aventuras em fotografia, cinema e vídeo | Maureen Bisilliat e Jorge Bodanzky conversam com Ivana Bentes

por Laura Del Rey

Em mesa da Arena Zum mediada por Ivana Bentes, Maureen Bisilliat e Jorge Bodanzky conversaram sobre seus trabalhos, em especial o documentário Terceiro Milênio, de Jorge, o ensaio fotográfico Matadouro, de Maureen, e filmes recentes que a artista têm realizado.

Jorge Bodanzky

Unidos por Ivana Bentes nos termos “dois aventureiros, dois fabuladores do Brasil”, outras semelhanças cruzam estes trabalhos: o tema dos povos indígenas (Jorge mais ao norte da Amazônia e Maureen mais no Xingu), o aguçado e persistente olhar documentarista de ambos e — parte destacada pela mediadora — o caráter multimídia dos projetos, que atravessam décadas se reinventando. Maureen e Jorge trabalharam com quase todos os formatos e linguagens — desde super 8, VHS e miniDV até os meios digitais atuais.

trabalho de Maureen Bisilliat no Xingu

“Ora trabalho com fotografia, ora com cinema, ora com… mas é como uma corrente que vai se arrastando, e um elo liga a outro” (Jorge Bodanzky).

Ambos, também, passam por um momento de reavaliar suas produções. Jorge, 58 anos depois das filmagens de Terceiro Milênio, projetou trechos do documentário de 1981, destacando a contemporaneidade de seu tema político: “Pra ver que nossa história, também, muitas vezes se repete”. O longa acompanha quatro semanas do senador amazonense Evandro Carreira, que navegou pelo Solimões com a equipe enxuta do filme durante sua campanha eleitoral daquela época. Não foi eleito, “porque todos em Manaus odeiam o Evandro”, mas deixou registrados depoimentos tão contundentes quanto contraditórios sobre o abandono do povo indígena na região, o trabalho realizado pela FUNAI e o panorama político da época (em que o Brasil enfrentava a ditadura militar). Nas filmagens de 80, um índio bateu com uma lança na câmera (para evitar ser filmado), e a lente de Jorge travou na mesma distância focal deste momento até o final das diárias, deixando uma marca física e ideológica no material. “A gente não sabia qual era o perigo maior: a FUNAI ou os índios provocados pela FUNAI”. Jorge comenta que, como naquele período, hoje o país atravessa um contexto difícil — mas que, por mais frustrante que sejam estes entraves, também são instigantes para os trabalhos. Ivana lembrou do filme Maranhão 66, de Glauber Rocha, que foi feito sob encomenda de Sarney e acabou se tornando uma espécie de anticampanha.

arte do documentário Terceiro Milênio, de Jorge Bodanzky

Maureen, cujo projeto fotográfico no matadouro foi feito em 1958, hoje em dia co-dirige alguns vídeos em parceria com Fábio Knoll e Felipe Lafé, “que filmam como eu fotografo”. Em um dos trechos que projetou (do filme Equivalências, em desenvolvimento), a artista revisita Feira de Santana e encontra um funcionário que trabalhava no matadouro registrado por ela em 1958, pra quem mostra algumas imagens em seu celular. Conhecida pelos projetos de “mitos e mitologias”, muitos deles inspirados em escritores brasileiros (como Guimarães Rosa), Maureen hoje pondera que a maior parte de sua produção fotográfica terminou nas décadas de 60 e 70 — destacando que, hoje em dia, revisita muito o acervo (cujos direitos estão com o IMS desde 2003) em busca de novos significados para o próprio trabalho. “Estão pipocando encontros fotográficos por todo o Brasil e eu acho que é nestes eventos que a fotografia hoje está acontecendo. Com essa saturação de imagens, acho interessante pensar o que é fotografar”. Jorge endossa o questionamento: “A gente se pergunta o que que a gente faz; eu me vejo como um contador de histórias, e achei na imagem a maneira como consigo me expressar melhor”. O fotógrafo espanhol Juan Valbuena, que pouco antes havia apresentado um trailer de 7 minutos sobre seus trabalhos, arriscou um ponto de vista interessante sobre a questão: “Qual é o nosso papel [como fotógrafos, editores, cineastas, produtores de imagem]? Ter esperança de que contando bem as histórias nos faremos ouvir”.

A João Guimarães Rosa (Maureen Bisilliat)

Também apresentada como trailer de 7 minutos, a fotógrafa carioca Anna Kahn documenta, desde 2002, locais do Rio de Janeiro em que pessoas foram vítimas fatais de balas perdidas. “O que me move é acreditar que as ruas vazias são inaceitáveis”.

Fica, desta mesa, além do encantamento com os projetos, uma pergunta colocada por Ivana Bentes, referindo-se aos atuais meios de produção e disseminação da imagem: o que vai ser deste enorme acervo doméstico da gente?