O documental em desequilíbrio — entrevista com Laia Abril

por Felipe Abreu — Editor da OLD

Sempre ligada a temas tabus, com atenção especial à intimidade feminina, a produção de Laia Abril se desdobra formalmente a partir de um controle cuidadoso com a construção de narrativas por meio da utilização de objetos, arquivos pessoais e de uma cuidadosa edição fotográfica. “On Abortion” é um exemplo recente. Em um festival na França, ela exibiu essa obra produzida a partir de uma coleção de instrumentos contraceptivos, tema que será exposto pela artista nesta sua primeira passagem pelo Brasil, durante o Valongo Festival.
 Além de “On Abortion”, Laia recebeu grande destaque por seus trabalhos “The Epilogue” e “Thinspiration”. Os dois projetos lidam com questões ligadas a distúrbios alimentares, sendo que o primeiro reconta a história de Cammy, morta por consequência de sua doença, e o segundo mergulha no perturbador universo de imagens de fóruns pró-anorexia, apresentando um complexo e preocupante universo de produção de imagens.

Laia Abril — On Abortion

Felipe Abreu — Você é uma fotógrafa que preza pela edição e pelo storytelling de seus projetos. Você vê essa construção como uma etapa-chave na criação de um trabalho fotográfico?
Laia Abril — Para mim, edição e narrativa não são elementos distintos do processo fotográfico, ou seja, não são nem mais nem menos importantes. Trabalhei como editora durante muitos anos, e uma coisa é editar uma revista, na qual você faz uma composição de muitos trabalhos e conceitos, vindos de escritores, fotógrafos. Nesse tipo de criação é necessário que alguém dê sentido a todo o conjunto. Mas quando há fotógrafos com dificuldade em editar seus trabalhos, fico muito surpresa, porque, para mim, a parte da edição é o que dá mais voz ao trabalho, mais até do que a própria imagem. No meu trabalho, que é mais conceitual e menos estético, eu já fotografo pensando na narrativa que quero criar.

Laia Abril — On Abortion

Seu trabalho está profundamente ligado a questões de gênero, especialmente nos temas ligados à saúde da mulher. Como você delimita suas histórias? O que a fez optar por elas?
 Na verdade, quando comecei a desenvolver temas mais pessoais, como esses, houve um processo bastante intuitivo. Sabia que havia algo que me interessava neste campo, mas não sabia bem o que era. Com certeza, era algo ligado à proximidade dos temas a mim mesma e à minha capacidade de ter empatia. Com os anos percebi que não documentava, eu transformava as coisas. Ou seja, há um processo de documentação, de investigação, mas me interessa pegar essa realidade e transformá-la em algo. Os temas que eu trato são pessoais e eles me tocam, às vezes de maneira mais ou menos profunda. Normalmente lido com questões incômodas e que ninguém quer abordar, os tabus. Ao criar um conceito, ao transformá-las em algo novo, de certa maneira, trago luz a essas questões.

Laia Abril — On Abortion

Você lida com algum tipo de apropriação de imagem em quase todas as suas séries. Como esse processo ajuda na construção de suas narrativas?
 Minha faceta como editora me deixa bastante à vontade para usar e trabalhar materiais que não foram primordialmente criados por mim. Em “The Epilogue”, a apropriação foi a chave do projeto. Era uma maneira de contar a história de uma menina, usando materiais seus e sua memória. Por ela já ter falecido, eu só podia fotografar o ambiente em que havia vivido. A visão que pessoas próximas tinham dela e as fotografias e materiais de arquivo trariam sua voz ao trabalho. Em “On Abortion”, também há material de arquivo, além de imagens refotografadas. Eu não [penso se devo] fazer mais ou menos fotos, faço o projeto como um todo. Mesmo que eu tenha feito a foto, não a crio sozinha, sei que há muita gente ao meu redor que contribui para a criação de cada imagem. Penso que só quero fazer fotografias quando o fato de fazê-las melhora a história. Se há algo já feito e que é mais eficiente para a minha história, uma imagem, um texto, não tenho porque fazer mais fotografias.

Laia Abril — On Abortion

O que você espera desta sua passagem pelo Brasil e o que você pretende apresentar no festival?
 Estou muito contente e ansiosa porque nunca estive na América do Sul, nunca fui ao Brasil e tenho muitos amigos do país. Para a apresentação, estou bastante animada para falar de On Abortion, até porque o Brasil faz parte do projeto e é um local definitivamente importante para falarmos do tema. Por ser um tema tão complicado, um projeto com tantas camadas, tenho que pensar muito bem em como apresentá-lo para um público que não está familiarizado com as imagens.

Leia a entrevista na íntegra na OLD Nº 61.