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Impressões reais (e ruins) do eu virtual



A expansão das redes sociais trouxe, no bojo da sua criação, duas características que, embora distintas, as definem: a ampliação do alcance da opinião individual e da hostilidade.

As redes sociais são um meio fantástico para democratizar a informação (hoje qualquer pessoa pode produzir e disseminar informação ao invés de apenas consumi-la) e de ampliar a voz das pessoas fazendo com que sua opinião e visão de mundo tenha um alcance até pouco tempo impensável.

Com elas, fazer-se notar no meio da multidão ficou mais fácil. E todo mundo quer ser notado. Por outro lado, com uma frequência cada vez mais assustadora e incômoda, as redes sociais têm se prestado a mostrar o que há de pior em nós. Aquele lado que, no chamado “mundo real”, nos esforçamos para manter sob controle para evitar constrangimentos ou uma má impressão por parte daqueles com quem convivemos: nossos preconceitos, recalques, inveja e agressividade.

As pessoas simplesmente acreditam que o suposto anonimato que a tecnologia lhes concede é o bastante para não se importar mais com coisas como equilíbrio e bom senso, consideradas fundamentais nas relações do mundo real. É cada vez mais comum, no mundo virtual, sem a menor cerimônia, a liberação de frustrações não assumidas no cotidiano. Mas, guardadas bem no fundo da alma. Tal qual uma caixa de pandora que, uma vez aberta, liberta todos os males.

No mundo virtual, a única relação que realmente parece importar é que se tem consigo mesmo. O outro, esse ser com o qual nos relacionamos nesse mundão de meu Deus (representado tanto por aqueles que amamos quanto por aqueles que nos desagradam ou desconhecemos), é reduzido à uma platéia acrítica (já que não vale questionar, contra argumentar, nem discordar) do nosso (peço licença à Marisa Monte) “infinito particular”.

Urge ostentar o quanto se é relevante. Relevância e reconhecimento são coisas que, lá fora, no mundo real, dão trabalho conquistar. Mas, no virtual é tão rápido quanto uma curtida… (ou várias…).

As pessoas esquecem que quando tornamos patente o que pensamos, através de texto, nos expomos mais do que deveríamos. Detalhes escapam e palavras mal colocadas se proliferam tornando o doce em amargo rapidamente diante de uma audiência que, no dia a dia, não costumamos ter.

Esquecem que tudo o que é publicado: aquele post ofensivo, aquele comentário maldoso, aquele tuíte propositalmente rude, permanece acessível mesmo quando “apagado” da conta ou perfil, nos potentes servidores do Facebook, Twitter e afins.

Pior… É provável que quando você decida deletar, o estrago já esteja feito e as impressões reais sobre como você é, virtualmente falando, podem custar aquela entrevista para um novo emprego. Podem custar a sua reputação. Podem custar uma amizade…

Faço minhas as palavras da psicóloga Ana Luiza Mano, que, recentemente, colaborou com uma matéria do portal UOL sobre comportamento hostil nas redes sociais: “A educação para o uso da internet é uma questão séria e muito relevante, pois a consciência dos internautas a respeito das repercussões dos seus atos pode ajudá-los a compreender como os eventos do mundo online podem afetar diretamente suas vidas offline. A dica é: pense muito bem antes de postar”.

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Ilustração: “Angry Bottle/Garrafa da Ira”, do designer dinamarquês Frits Ahlefeldt.