O Cigarro, o Whisky e a Nudez

O beijo cessa. E minhas costas suadas se colam à cabeceira da cama. Enquanto ela estica o braço figurado pra alcançar o maço de Marlboro vermelho no criado, eu observo seu dorso nu.

Ainda restam algumas horas da madrugada. Ela cuidadosamente leva o cigarro ao canto da boca na iminência de cair; acende o isqueiro com a mão direita; com a esquerda, procura a playlist dos Strokes. Então, simultaneamente, ela traga avivando a brasa e “Animals on TV singing about some pain that they once felt” rompe o silêncio das sirenes e buzinas.

Do outro lado da cama, eu olho estupefato os movimentos desse corpo esguio e pintado dos pés à cabeça. Dessa forma, ela completava seu ritual feito missa, despertando-me a vontade enlouquecida de rezar taciturno pra deuses inexistentes.

Depois da epifania, necessita-se de um whisky. Descolo as costas da cama, calço as meias para esconder a nudez, caminho até a cozinha. Armário; copo; garrafa; dose. Meu passo coberto torna ao quarto com meu trago na mão. Ela está à janela com o dela. Observa as luzes da cidade rutilarem como as centelhas de seu pulmão. Sopra afora da janela a fumaça, sem sucesso; o vento dessa altitude a empurra de volta. Conforme eu bebo e olho pra cima, o quarto fica cada vez mais enuviado.

O cigarro cansara-se dela, mas eu não. E, enquanto seus cotovelos descansam à janela e sua face é coberta pelos holofotes policromados da rua, eu sinto como se vislumbrasse um Monet durante uma viagem de ácido.

Ela cativara outro do maço assim que voltou a cama. Meu copo ainda na metade obriga-me a notar, marcados em seus dedos, os olhos que me tocaram. E questiono: por que são nossos vícios, os únicos companheiros?

A playlist se findava. Ela, com o cigarro frente ao abismo, me nota; dá-me a mão; aninha-se no meu peito e diz “quando partir?”. Deuses, com o peito em chamas, só espero que ela não se canse de mim.