Ano Novo
Dizem que os maias contavam o tempo de maneira cíclica e não linear. Talvez eles tivessem uma compreensão do tempo mais honesta em relação às necessidades humanas, porque embora a nossa civilização ocidental, racional e eurocêntrica, conte os dias de maneira linear, não conseguimos escapar da necessidade de fazer marcações cíclicas no tempo. Se o passado jamais se repete, por que diabos fazer aniversários, comemorar a páscoa, o Natal, o Reveilón? Por que transformar essas datas em tradições e repetir os mesmos protocolos, ritualisticamente, ano após ano? E essa pergunta leva a uma outra, mais estranha ainda: é possível viver a vida sem nenhuma “marcação”? Como seria o cotidiano sem datas comemorativas, sem anos novos, sem datas religiosas ou cívicas?
Talvez os maias tenham compreendido que a natureza humana precisa dos ciclos. Precisa das marcações, da sensação que algo foi concluído e uma nova fase se inicia. As datas comemorativas variam de cultura para cultura, mas todas elas compartilham da necessidade de haver datas comemorativas: para celebrar as colheitas, a primavera, o sol, os deuses, os heróis, os grandes eventos históricos…
Finalmente, a maioria das culturas precisa celebrar a conclusão de um ciclo. As regras variam: pode ser um ano solar, um ano lunar, a volta da primavera ou do verão. De todo modo, deve haver um calendário, e esse calendário em algum momento precisa se concluir. Porque em nossa concepção humana e limitada de realidade, o tempo deve imitar a vida, e a vida sempre se renova. O ano novo deve suceder o ano velho da mesma forma que os filhos sucedem os pais, que a colheita nova sucede a colheita antiga, que o dia sucede a noite.
A verdade é que dependemos dessa sensação de conclusão. Para nos desprender do passado, para nos preparar para o futuro, para tirar o mofo das expectativas velhas e nos permitir criar novas. Cada ciclo concluído é o placebo de um renascimento. A única conclusão derradeira é a morte, e a morte, em seu curso natural, leva vários anos para acontecer e — na maioria dos casos — não tem volta. Enquanto ela não vem, olhamos para o céu e calculamos a dança infinita dos astros para delimitarmos os períodos da vida. Não porque a vida em si precise ter períodos, mas porque precisamos dos períodos para entender melhor a vida.
Feliz Ano Novo.