O autocromo e as cores do passado

Algumas invenções são bem mais antigas do que a gente imagina.

Essa impressão talvez se deva ao fato de não vivermos em um país produtor de tecnologia de ponta, e se acentue pessoalmente pelo fato de ter vivido metade de minha vida em um mundo sem internet e sem o mercado globalizado de hoje. O microondas chegou às cozinhas norte americanas no final da década de 60, e me lembro claramente da sensação de novidade quando minha tia mostrou o seu exemplar aos meus pais, no final da década de 80. Os primeiros celulares eu vi apenas no cinema, e confesso que levei um bom tempo tentando entender o que era aquele tijolo com teclas que o mafioso do filme estava tirando do painel do carro. As pessoas da minha geração que, assim como eu, viviam longe do mundo maravilhoso da classe média-alta, sabiam das inovações tecnológicas pela matéria do Jornal Nacional, ou pelo “ouvir falar” dos vizinhos no papo de churrasco. Talvez essa impressão seja apenas fruto do meu desconhecimento do mundo naqueles tempos. O fato é que a medida que fui envelhecendo e estudando um pouco mais as coisas, fui me surpreendendo cada vez mais não com as novidades, mas com a falta de novidade de certas coisas.

Vejamos a fotografia, por exemplo. A técnica da câmara escura já era conhecida desde o Renascimento. É quase certo que pintores como Leonardo da Vinci e Rembrandt a tenham utilizado. O que demorou para descobrir foi como fixar a imagem refletida no fundo da câmara escura em alguma superfície. Isso só foi acontecer no longínquo ano de 1826, quando o inventor francês Joseph Niépce desenvolveu uma tecnologia que ele mesmo chamou de heliografia. Foi assim que produziu essa imagem:

Não digitei errado, não. O ano é esse mesmo, 1826. O Brasil era um país independente há quatro anos e ainda vivia sob o reinado de D. Pedro I. A foto pode não estar muito nítida, mas revela a vista da janela do pavimento superior da casa do próprio Niépce — que, diga-se de passagem, começou a conduzir experimentos com revelação de imagens ainda em 1793, em plena “Fase do Terror” na então recém instaurada república francesa.

O século XIX, parecido com os tempos atuais, foi marcado por um grande clamor em torno das descobertas científicas. A fotografia evoluiu bem rápido: no final da década de 1830, Louis Jacques Daguerre e William Fox Talbot desenvolveram as técnicas de Niépce e patentearam sistemas de reprodução fotográfica bem mais parecidos, em nível de nitidez e precisão de imagem, aos dos dias de hoje. As empresas de retrato nasceram, fotojornalismo nasceu, tudo ainda na primeira metade do século XIX. Não é todo livro de História que mostra, mas existem registros fotográficos da guerra civil americana (1861 - 1865) e da guerra do Paraguai (1864 - 1870) — o Brasil, aliás, é considerado como um dos países pioneiros na fotografia, graças às experiências do pintor e naturalista francês residente em Campinas, Antoine Hercules Romuald Florence, entre as décadas de 1820 e 1830. Escolha qualquer personalidade histórica que viveu pelo menos até meados do século XIX e digite o nome dela mais “foto” no Google: existe uma grande chance de ter um retrato não pintado, mas fotografado.

Daí então você diria: “Bem, mas era tudo foto preto-e-branco. Foto colorida mesmo só na metade do século XX pra frente”. Foi o que eu disse por muito tempo. Afinal, foto colorida é uma invenção relativamente recente, não?

Então… Não é, não.

A foto acima é a primeira fotografia colorida da História. É de autoria do físico inglês James Clerk Maxwell, em 1861. Foi feita através da composição de três imagens monocromáticas tomadas através de filtros vermelhos, verdes e azuis (RGB). Ao projetar essas imagens a partir de três lanternas — cada uma com um filtro de cor diferente — a imagem colorida foi produzida.

Anos mais tarde, em 1903, os irmãos Lumiére (os próprios, aqueles que inventaram o cinema) usaram o mesmo princípio para criar um processo de reprodução fotográfica colorida mais acessível comercialmente. Esse processo foi finalmente lançado em 1907 no mercado, sob a patente de Autocromo.

Assim como nas fotos preto-e-branco, a imagem autocromática era formada em um material sensível à luz. Mas ao envés de uma única folha de papel ou metal, a imagem era reproduzida em três diferentes camadas de transparência, cada uma tratada com granulado de fécula de batata colorida para “mascarar” um diferente canal de cor — um para o verde, um para o vermelho e um último para o azul. Quando as transparências eram reveladas e sobrepostas, causavam a impressão de cor nas imagens. Ainda era um processo bastante primitivo de produção de fotos coloridas, as cores pareciam opacas e um pouco distantes da realidade. Contudo, comparadas às tradicionais imagens em preto-e-branco que temos do passado, retratam um realismo tão impressionante como encantador:

Mark Twain, 1909
Soldado de trincheira: Primeira Guerra Mundial
Moça na praia. Mervyn O’Gorman, 1913
Prisioneiros de guerra alemães — Primeira Guerra Mundial
Irmãos Lumiére, autorretrato, 1914

A técnica do autocromo dividiu com a colorização artesanal a produção de fotografias coloridas até a invenção do Kodachrome, em 1935, e pela tecnologia Agfacolor, um ano depois. No Brasil, o primeiro autocromo data de 1915.

Para quem quiser ver mais, segue os links. Bon appétit!

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