O Mito do Talento Criativo

Nas profissões criativas, criou-se o perigoso mito do “talento”. O criativo seria o portador de um dom, de uma centelha divina que o separaria dos reles mortais e seria responsável pela sua capacidade de desenhar, de compor imagens atraentes ao olhar, de criar ideias inovadoras. Como todo mito, esse também é muito mais fruto de uma construção cultural do que de um fato concreto. Foi se desenvolvendo ao longo de anos entre o público leigo, e mantido pelos profissionais criativos, por vaidade ou então porque ajudava a “vender melhor o peixe”.

Contudo, não são os publicitários, nem os designers, nem os artistas plásticos, os verdadeiros responsáveis pelo mito do “talento” do artista. Essa construção se deve muito mais ao entendimento equivocado do próprio significado do que é talento.

Quando as pessoas dizem que alguém é talentoso, idealizam o adjetivo como uma capacidade de “fazer” inata. De fato, pode existir ali uma predisposição, mas a habilidade em si não é causa, é consequência. Talento é o interesse excepcional que faz um indivíduo se dedicar a um determinado assunto, com muito mais foco e empenho que uma pessoa “normal”. A habilidade que impressiona é o produto resultante da dedicação física e mental do “talentoso”. Bruce Lee não nasceu sabendo artes marciais, Van Gogh não nasceu sabendo pintar, Einstein não nasceu físico. Eles adquiriram essas competências ao longo da vida, e a medida que se entregaram de corpo e alma ao seu ofício, em algum momento atingiram um patamar superior ao daqueles que não dedicavam tanto tempo, estudo e energia em fazer as mesmas coisas.

Infelizmente, o que o leigo pode enxergar é apenas a ponta do iceberg. Não podemos pegar uma máquina do tempo para acompanhar o progresso de Van Gogh das primeiras garatujas na infância até os desenhos mais avançados na juventude, ou então observar todo o seu progresso como pintor na sua última década de vida. A sua biografia pode dar uma ideia apenas superficial do seu nível de dedicação. Mesmo ler textualmente qualquer afirmação sobre a trajetória de Van Gogh nos traria apenas uma impressão distante sobre os sacrifícios que fez para se tornar um grande pintor — jamais reconhecido em vida, diga-se de passagem. Somente na pele do próprio Van Gogh teríamos uma noção exata de quanto esforço físico e mental é necessário para forjar um gênio. É muito mais fácil admirar seus quadros e atribuir sua capacidade a um dom inato.

O mesmo acontece com bons programadores visuais. A despeito do senso comum, forjar um leva tempo, sacrifício, muita prática e estudo. Van Gogh estudou exaustivamente os impressionistas para desenvolver sua própria linguagem na pintura; Einstein teve que dominar princípios sofisticados de matemática e conhecer intimamente a física tradicional para criar a teoria da relatividade. De modo similar, designers e diretores de arte precisam construir todo um repertório visual para dominar o seu ofício, precisam estudar composição visual, geometria descritiva, teoria das cores, teorias da comunicação e da psicologia, precisam conhecer algumas técnicas de desenho como luz, sombra e volumetria, precisam dominar vários programas gráficos. Depois precisam pôr tudo isso em prática por alguns anos até a experiência torna-los ágeis o bastante para dar conta das demandas do mercado.

Aquele garoto que desenha bem e sabe “mexer” no Corel pode até ter talento, mas sem essa bagatela de conhecimentos ele é ainda apenas um garoto bom desenhista que sabe mexer no Corel. Sem apoio, prática e estudo, esse talento dificilmente vai sair dos folhetos de pizzaria de bairro, ou dos tutoriais de papel de parede para computador.

Isso não é necessariamente uma apologia ao bacharelado. Sou desenhista autodidata, conheço bons profissionais não-formados no ramo, e sei que o autodidatismo é um caminho difícil, cheio de percalços, mas perfeitamente possível. Se o talento é interesse, a obstinação do indivíduo engajado nesse interesse pode leva-lo ao conhecimento por mais de um caminho.

No entanto, também sei que o autodidatismo não é para qualquer um. Requer o dobro de dedicação, já que toma tempo para o aprendizado em si, e mais tempo ainda pesquisando o que aprender e onde encontrar o que aprender (os cursos, na pior das hipóteses, dão ao menos um método e uma bibliografia para estudar). Outra dificuldade é medir o próprio aprendizado nessas condições. Nem sempre o mercado é uma fonte segura de avaliação. A vaidade prematura e a mesmisse se tornam tentações ainda mais constantes.

E é do excesso de confiança — aliada a uma dose consequente de comodismo — que nasce a crença no mito do talento, tanto entre profissionais criativos autodidatas como formados. É sedutora a ideia de abraçar o senso comum e começar a acreditar que se tem um “dom”. A propensão de muitos ambientes corporativos ao culto ao ego, e a celeridade quase psicótica dos processos na indústria do entretenimento e da comunicação, empurram os criativos ainda mais nesse sentido — de deixar a pesquisa e a reflexão de lado, e confiar no famoso feeling. Isso é um dos maiores perigos à profissão, porque é uma crença que pode levar facilmente à estagnação: à utilização sistemática de ideias prontas, ao discurso vazio da inovação, ao “out of the box” que permanece na caixa, ao testemunhal do Rodrigo Faro. E a estagnação, no trabalho criativo, é morrer por dentro.

Pela quantidade de comunicação visual ruim que vemos por aí, os zumbis são muitos.

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