O Poder da Imagem

Este texto é antigo. Vem do meu blogfolio, do distante ano de 2010, muito antes da crise econômica/política/moral/tudo o mais. Achei interessante republicá-lo, especialmente em comemoração ao dia do designer. Segue o jogo…

Há alguns dias, aconteceu algo na agência que me fez refletir.
Estávamos tentando aprovar um cartaz para o Dia do Trabalho. Tive a idéia de tentar uma referência visual construtivista. Sempre adorei os cartazes do construtivismo russo, gostava da linguagem poderosa daquele estilo de ilustração, trabalhadores unidos olhando para o horizonte. Não vivi naquela época, e sei perfeitamente que não passava de propaganda política bem enganosa, mas sou capaz de imaginar como aquilo podia fazer o homem comum, o proletário, se sentir parte de algo maior. Num universo de endomarketing recheado de campanhas de integração, acredito que esse tipo de ilustração poderia ter um poder fortíssimo de inspiração, de incutir a sensação de orgulho por pertencer a determinada instituição, de integrar os colaboradores efetivamente.
Foi quando eu mostrei o meu layout para a atendimento do projeto, todo confiante, de peito estufado. E ela colocou todo o meu conceito por água abaixo:
“Tá meio PT, né?”
Caiu a ficha. Mandamos para o cliente, mas já sabia de antemão que o layout não seria aprovado. De fato, não foi.
É impressionante como, vinte anos após a queda do muro de Berlim, o mundo parece ainda polarizado sob os fantasmas da guerra-fria. Os teóricos da conspiração poderiam dizer que o ostracismo dos símbolos comunistas tenha algo a ver com manipulação das massas, mas não acho que seja o caso. É preconceito mesmo. Puro e simples. Para o socialista saudosista, um cartaz construtivista lembra a grandeza desiludida de um sonho de igualdade; para o designer — como eu — lembra algo bonito, geometricamente harmônico e visualmente poderoso. Porém, para o cidadão de classe média comum, isso lembra apenas mensalão, grevistas atrapalhando o trânsito, sem-terra ocupando fazendas produtivas e — quiçá numa paranoia mais delirante — comunistas ameaçando seu patrimônio.
Minha opinião política nesse caso é irrelevante. O que mais me fascinou nessa história foi a vivência de uma prova cabal da carga de ideias diversas — divergentes até — que uma simples imagem pode guardar dentro de si. Trabalhamos tanto na criação de símbolos, signos e imagens, que muitas vezes esquecemos involuntariamente as muitas possibilidades por trás daquilo que criamos.
Regozigem-se, designers, ilustradores, diretores de arte e criação: nós temos poder! Mas jamais nos esqueçamos das palavras do Tio Ben — aquele, do Homem-Aranha: “Por trás de um grande poder, vem uma grande responsabilidade”.