
Colisão
A música triste estava tocando no fundo do quarto vazio. O espelho refletia a baixa luminosidade da tela do celular pelo cômodo. Quando eu levantava os olhos do display, tudo ficava borrado e manchado enquanto minha visão se adequava pra tentar me fazer entender o ambiente a minha volta. Parede. Cortina. Espelho. Teto. Nada. Tudo.
Anos se passaram, vidas circularam, águas rolaram e tudo voltou a exatamente ao mesmo ponto de partida. Zero. Eu cresci, mudei. Vivi. Sou um homem de 28 anos. Sou um vazio de 28 anos. Fui à lugares, respirei ares, conheci vidas, vivi essas vidas, senti gostos. Bons, ruins. Julguei sem conhecer. Me surpreendi pro bem e pro mal. Amei (e como amei!). Doí, sangrei. Desejei, fui desejado. Despertei amores, inveja. Também senti o mesmo. Girei, girei, girei. Caí.
Despejei veneno e aprendi que não era assim que iria a qualquer lugar. Recebi muitas pedras de volta. Em muito maior intensidade que as joguei. Distribuí amor 100 vezes e recebi 93 pedras pra falar em proporção. Não consigo dizer se valeu a pena.
Encontrei com o Daniel de dez anos atrás e a cabeça dele está bem melhor, ele evoluiu. Mas foi tudo. Todo o resto está igual. Ele viveu por amor, se jogou, se entregou, pendurou os sonhos e…
