É um privilégio poder ser pai, não é? Deus dá um grande presente aos homens por isso. E eu sou orgulhosamente pai de quatro filhos! Lembro de alguns dias depois de nascidos, em fevereiro de mil novecentos e oitenta e nove, ter ido buscar os gêmeos. Já tinha um mais velho e agora o presente era duplo. ‘Eu sou pai de gêmeos!’ — mal podia acreditar e ficava repetindo isso na minha cabeça. Acho que queria me convencer de algum jeito que merecia aquilo, um dos maiores presentes de Deus. Passava um filme na minha mente: Cerca de dez anos antes conhecera aquela que viria a ser o grande amor de minha vida, ainda no ginásio, Cleonice! Lembrava de quando a vi pela primeira vez na escola e como ela me deixava sem palavras. Dez anos depois e estávamos juntos e nossa família crescendo um pouco mais rápido do que planejamos, mas crescendo saudável.
A cada dia que passava, Daniel se distanciava mais da realidade do irmão mais velho e se aproximava de sua irmã. Eu achava que isso era coisa de gêmeos. A gente sempre ouve falar dessa ligação, não ouve? O tempo foi passando e ele não se interessava por futebol, pipas ou namoradinhas e essas coisas que a gente sempre esperava de meninos na década de noventa. Eu fui criado por um pai nordestino, duro, rústico, atrasado. Ouvi inúmeras vezes que devia tomar ‘jeito de homem’ e daí pra pior. E repassei tudo isso a ele. Mas eu não imaginava o quanto isso o feria e o afastava de mim. Jamais pensei nisso.
No início da vida adulta, ele me falou que aquele seu grande amigo, que vivia com ele pra todos os lados, era seu namorado. Ele chorou, eu congelei e ele, por fim, me pediu um abraço. Eu pude sentir o peso saindo de cima dele. Enquanto ainda estávamos abraçados nas margens do Lago Dos Patos em Guarulhos, começou uma leve chuva cair. Decerto uma mensagem divina pra limpar a nossa relação, que por falta de entendimento de nós dois sempre foi muito conturbada. Eu fui o último a saber, obviamente! Mas eu preferi assim, que ele me contasse. Não gostaria de saber da boca de outros e quando ele estava pronto, se abriu! Eu fiquei alguns dias em estado de choque, meio que em transe. Pensando onde eu tinha errado, onde eu não estive presente o suficiente. Tentei ouvir uma resposta de Deus. Mas aparentemente, nada. Isso não tinha sentido algum na minha cabeça.
Mas sabe de uma coisa? Eu tinha mais motivos pra me orgulhar do que pra duvidar, pra chorar. Ele sempre foi bom aluno, sempre trabalhou, sempre foi responsável. O que aquele novo detalhe mudaria? Que eu ganharia um novo genro ao invés de uma nora? Então eu fiz aquilo que achei que teria que fazer: nada. Disse que o amava de qualquer forma, me preocupei em saber se ele não se exporia demais, mas por medo do que a rua o faria sofrer. A rua é hostil demais com gays e eu tive muito medo. Tem tantas outras coisas que ele poderia ser e é apenas gay. Que diferença isso faz? Nós estamos nesse mundo de passagem, sabe? Deixe que ele seja aquilo que for feliz pra ser. Se não fizer mal a ninguém, amém!
Mas aí soube que ele é HIV+. Eu entrei em desespero. Mal conseguia respirar quando o abracei logo depois de saber. Eu acho que nunca o abracei com tanta força. Eu achava que ele ia morrer dali a qualquer minuto! Eu só pensava em todo o horror que vi na TV duas décadas antes e via meu filho naquele estado, definhando numa cama. E nunca senti nada como aquilo antes e espero nunca mais sentir. Mas aprendemos todos juntos. Sofremos, choramos, nos abraçamos e estamos todos aqui. Quase três anos depois e duas promoções na empresa dele, está tudo bem, graças a Deus!
E pouco depois de um ano resolveu falar abertamente sobre isso. Eu admiro muito a coragem, a força e a resistência em falar sobre isso abertamente! Meu filho sim é um homem de verdade, um super homem! E eu o pai dele.

