Dia Cinza


Hoje amanheceu frio, meio mal humorado. As nuvens estavam encobrindo todo o céu azul que eu sabia que estava lá. Choveu e meus pés estavam pedindo uma meia por causa da corrente de vento que encontrou alguma fresta e conseguiu invadir o quarto. O ventilador está encoberto de poeira, já não funciona há semanas e fica ali feito aquela dieta de verão: é só lembrança sazonal. O barulho da chuva compete com o som do piano da playlist do streaming. E nesse momento, além da chuva que molha tudo lá fora, há a chuva aqui de dentro.

Pra mim, hoje é Dia Cinza. E esse dia pode ser qualquer um, à qualquer hora. A chuva e o frio sempre me deixam mais sentimental e mais carente. Penso em bons momentos de relações anteriores e sinto falta desse aconchego. Nas risadas, nas piadas internas, naquele jeito que ele olhava e só nós dois entendíamos. Na ligação que a gente tinha que dispensava qualquer palavra que pudesse ser dita. A conexão que faz falta. A ligação.

Não fico triste mais. Isso é um bom sinal, não é? Dizem que quando o passado deixa de pesar, superamos. Pode até ser que sim, mas às vezes, fico tão revoltado de ter ido tão longe e ter me sentido tão acima das nuvens cinzas e estar aqui remoendo tudo! Quando ele estava aqui, em dias assim eu me sentia acima das nuvens, em pleno céu azul o tempo todo e eu acho tão injusto sentir o melhor gosto da vida e depois amargar a solidão! Que paladar se acostuma a isso?

A chuva continua caindo.

O ventilador empoeirando.

A vida também continua passando.

Eu? Eu continuo acreditando.

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