Procura-se

Hoje conheci um rapaz. Bom, ele veio atrás de mim e se apresentou. Não, não era paquera. Ele precisa de um favor. Pensando bem não é um favor, mas é algo que ele precisa pra garantir dignidade e a própria vida. Ele precisa de um emprego.

Domingo. Minha rotina além de umas horas de sono a mais quando possível também inclui ir pra Igreja. Hoje foi mais um domingo dentro do roteiro. Quando estava saindo algo me surpreendeu, apesar de saber que isso acontece com muitos moradores de favela. Não vou dourar pílula pra nada, pelo menos nesse texto não vou usar nenhum eufemismo politicamente correto, como chamar favela de comunidade caso alguém viva num mundo encantado para agora nao se enganar.

Estava conversando com uma senhora que ajuda a cuidar de tantas coisas que uma Igreja precisa. E ele veio conversar pra contar sua história e pedir ajuda.

Ele era coroinha da igreja. Teve a sorte de ser chamado pro serviço militar. Pra um jovem negro, morador de favela ser chamado é ter muita sorte. E ele queria seguir carreira no exército. “Ai, milico, eca!” Olha… Ele queria seguir carreira. Quantas oportunidades ele teria de ter estabilidade, se esforçar (dando um duro desgraçado) e crescer, ganhar mais? Exército é um sonho pra muitos adolescentes, acredite.

Até que os traficantes descobriram que ele estava prestando o dever cívico mais temido de todos meus amigos aos 18 anos. O que os traficantes queriam? Conselhos? Jogar futebol? Não. Eles exigiram que esse rapaz roubasse armas do quartel. Como ele nos contou, as alternativas eram:

  • Roubar as armas e correr o risco de ser preso no quartel.
  • Roubar as armas e não ser descoberto mas ficar com peso na consciência, (sim, existem muitas pessoas com consciência no mundo ainda) nas palavras dele “como vou olhar pra Deus sabendo que fiz uma coisa errada”? Traficante não usa arma pra enfeite. Não é pra coleção. Qualquer morador de favela sabe muito bem as consequências disso.
  • Não roubar as armas.

Ele escolheu a última alternativa. Ele foi honesto e fez a coisa certa. Uma pena que os traficantes não entenderam o lado dele e decidiram que era uma boa idéia ficar de plantão pra matá-lo assim que botasse o pé fora de casa. No meio da terceira semana preso (já que mesmo com UPP o tráfico no Pavão/Pavãozinho vai muito bem, obrigado) o comandante ligou pra saber o motivo dele não se apresentar no quartel. Ele explicou e o Exército fez literalmente uma operação de resgate. O Exército salvou a vida dele.

Pro azar dele, assim que terminou o período obrigatório ele não conseguiu vaga pra seguir carreira. Não que o Exército brasileiro não precise mas sabe como é, o governo federal decidiu sucatear completamente as Forças Armadas e o sonho perdido do Ronaldo (esse é seu nome) foi apenas mais um efeito colateral.

Sem poder voltar pra família, alugou uma casa na Pavuna. Como não tem emprego, está devendo. Foi pra Igreja, outra instituição que não anda com muito prestígio com os ativistas mas é um lugar que recebe de forma igual moradores das favelas e gente rica, muito rica. Do tipo que pode descer do apartamento e ir a pé pra um jantar no Fasano. Infelizmente não é esse meu caso mas ele tinha que tentar. E meu coração ficou apertado de ver um rapaz que não pode voltar pra casa, pode ser despejado a qualquer momento e precisa de uma coisa simples mas tão em falta: um emprego.

Ele aceita qualquer coisa. Porteiro, auxiliar de obra, segurança… Alguém que precise de um rapaz novo, com vontade de trabalhar, honesto e com referências até dos padres, eu tenho o celular dele. Só pedir.


Agora entra aqui o que muita gente estúpida pode chamar de “reaça”: parem de romantizar traficante. As chances deles são tão difíceis quanto as do Ronaldo mas as escolhas completamente opostas. Existe sim o certo e o errado. Não romantizem que traficante tem código de ética, que não mexe com morador e cuida muito bem da comunidade, que traficante só quer vender sua droga e não faz outros crimes. Que não estupra meninas. Como moradora do Rio não é tão difícil você acabar conhecendo algum traficante. Já fiz trabalho voluntário em favela e nunca aconteceu nada comigo. Mas nunca me iludi que não era uma questão de sorte. Gostaria de deixar isso registrado. O Ronaldo procura um emprego e os traficantes a cabeça dele. É assim que as coisas são.