“Eles eram muitos cavalos, / mas ninguém sabe os seus nomes, / sua pelagem, sua origem…”

“Eles eram muitos cavalos” é uma das três obras literárias de Luiz Ruffato, a saber Flores artificiais (2014), Estive em Lisboa e lembrei de você (2009) e o livro em questão. Mineiro de Cataguases nascido em 1961. Luiz Ruffato é formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. A primeira edição do livro foi publicada em setembro de 2001 e traduzido para vários idiomas, como: italiano, francês, alemão e espanhol. Por este livro, Ruffato recebeu o Prêmio APCA — Melhor romance de 2001 e Prêmio Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional. Ok, até aqui nada que não encontramos em qualquer busca rápida pelos mecanismos de busca da internet.

O título “Eles eram muitos cavalos” é de um trecho retirado do livro Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles que fala sobre Minas Gerais, a inconfidência e seus principais personagens — talvez a obra mais engajada socialmente de Cecília. A epígrafe do livro ainda continua e completa: “Eles eram muitos cavalos, / mas ninguém sabe os seus nomes, / sua pelagem, sua origem…”. O interessante de se notar é que, apesar do livro tratar da cidade de São Paulo, como irei comentar mais adiante, ele é feito, desde o título, com a ótica mineira, como seu autor para com a cidade cinza.

O diferencial da obra de Ruffato é que há uma quebra do que acostumamos a ver em um livro, tanto em relação ao tempo, espaço e personagens. Eles eram muitos cavalos é um conjunto de sessenta e oito relatos e “colagens”, cada um com sua própria atmosfera e personagens, mas todos com o mesmo fio condutor:

1. Cabeçalho
São Paulo, 9 de maio de 2000.
Terça-feira.

Basta uma pequena busca para constatar que não há um comentário sobre esta obra sem que qualquer generalização sobre seu todo ou suas partes sejam colocadas entre aspas. Acredito que Ruffato se delicie destas nossas dúvidas: É um romance? É uma coleção de contos? Crônicas? Por ora vamos nos ater a denominar esta obra de “instalação literária” e suas numerações como “suas partes” ou “fragmentos”. Cada fragmento é marcado pela diferença entre os gêneros de linguagem e os gêneros da narrativa. Tudo forma um mosaico textual composto por cartas, orações, cardápios, previsões meteorológicas, lista de livros, anúncios de classificados, conversas, recados na secretária eletrônica e histórias onde até um cachorro pode ser o narrador. O fio condutor de toda essa miscelânea é que tudo acontece na mesma geografia paulistana e no mesmo dia, uma terça-feira de maio, a poucos dias do Dia das Mães.

Deste modo, Luiz Ruffato nos entrega uma obra que foge do convencional. Ao alternar entre a poesia, prosa, relatórios, textos jornalísticos, cinema, televisão e publicidade, ele acaba por retratar o redemoinho da cidade grande, o impacto da velocidade e dinamicidade dos dias em uma grande capital nestes diferentes tipos textuais e vozes.

O autor decodifica a cidade que imprime na população, todos os dias, seus minutos e segundos, uma metrópole rasgada pela diversidade humana e na presença marcante dos migrantes. Uma colcha de retalhos construída por pessoas de todos os lugares do Brasil e de fora dele, que chegam e que partem. Pessoas das mais diversas classes sociais, e das mais diversas construções psicológicas dos personagens. A “instalação literária” então, se abre para o leitor e para os engarrafamentos, seus parques, suas casas, ruas e coberturas.

A São Paulo de Ruffato não se limita ao lugar comum da “selva de pedra”. A humanidade é contemplada cuidadosamente pelo olhar desse autor que praticamente se mistura à multidão para tratar o vasto painel da condição humana, algumas vezes deixando que o leitor perceba sua comunhão com as dores, indignações sutis e as alegrias da gente humilde que não se sabe de onde vem ou para onde vai, mas fazem o significado da cidade.

A cidade através de seus personagens está na menina prostituída, no índio bêbado, no pai que sonha com um futuro melhor para o filho, na garota morta pelo assaltante de bairro, no corrupto engravatado, no desempregado, na mulher desolada, na roda de amigos e até mesmo em um cachorro a procura de seu dono. São Paulo de sua multidão, de cada medo, esperança, desespero, mesquinharia. São Paulo do pacto de silêncio assustado do casal que sabe haver algum ferido, mas que prefere dormir, porque “amanhã a gente fica sabendo”. É uma São Paulo dos contos que continuam além de cada página.

Os cavalos citados no título acabam por serem todas estas pessoas. Uma metáfora para este grande pasto da multifacetada São Paulo dessa gente desgarrada e das mazelas que atacam a todos — um mais, outros menos, mas ataca a todos — sem distinguir entre seus nomes, pelagens ou origens.

Os dramas da banalidade do cotidiano, fragmentos da vida, vistos e captados por ouvidos e olhos atentos. Nada que o leitor desconheça, mesmo que por ouvir falar ou porque leu em algum jornal. Marginalidade. Anonimato. Os vivos e os mortos, os que chegam e os que partem. Quase sempre sem nome, como a pernambucana que vem visitar o filho, conhecer a nora e os netos, trazendo bagagem de expectativa acerca da vida do filho e a bexiga cheia, porque o banheiro do ônibus estava fedido depois de tanta estrada a caminho do desconhecido.

Além do prefácio do trecho de Cecília Meireles há outro que merece destaque:

Até quando julgareis injustamente,
sustentando a causa dos ímpios?
Salmo 82

Fica claro que através de todo esse emaranhado da pluralidade da terra da garoa o autor perpassa por uma forte crítica social. Tal qual os escritores modernos vieram tecendo seus textos com linhas ideológicas e politizadas e que buscavam discutir os indivíduos na sociedade, Ruffato faz o mesmo e com excelência, abrindo suas páginas com um apelo cansado sobre justiça social e inconformidade.

Ruffato é o inesperado com que a literatura sonhou que seria no começo do século passado e Eles eram muitos cavalos tem mais beleza do que dúvida acerca de sua difícil classificação. Era um dos lugares em que se previa que os textos modernos fossem chegar: essa pluralidade de linguagens e formas tal qual é o que eles vem a contar através das linhas.