Sentei em um banco dobrável ao lado da área reservada para cadeirantes. Cansado, minhas pálpebras já não se distanciavam tanto, de joelhos juntos segurava minha bolsa no colo. Um grupo, que subira no ônibus logo após a mim, se manteve em pé por falta de assentos, agarravam as hastes do ônibus com uma mão e na outro havia copos plásticos de bebidas indicando o bar de origem. Fizeram uma meia lua mui suficientes de si e passaram a rosnar assuntos embriagados em torno. Um deles, mais afastado e igualmente mais alterado, acomodou-se nas proximidades e soturno observou a todos, puxava moderadamente os cabelos cor de palha que tapavam-lhe o rosto enquanto mirava o vazio enfumaçado; tinha olhos atentos e bem abertos, um nariz comprido fazendo sombra nos lábios finos largos e rosados. jaziam olhares deles sobre mim e de mim sobre eles, interesses que talvez fossem mútuos, porém não se consumavam. Até haver uma deixa que estreitamente me permitiu uma pergunta:

“como é o nome dele?” timidamente indiquei o moço que protagonizava meu olhar, e devolvi um sorriso pretendendo um ar cômico à pergunta.

“Miguel” disse uma moça que se destacava por seus cachos.

Tornaram-se aparte novamente, desta vez suspeitando de meu interesse pelo menino. uma coincidência levemente previsível fez-nos pular no mesmo ponto e seguir boa parte do caminho juntos, mas distantemente confortáveis. Quando os rumos lamentavelmente dividiram-se sobraram intenções e duvidas em mim, sobre as possibilidades que houveram e haveriam após.

Não aconteceram muitas reflexões atraentes, apenas uma insistente lembrança de quantos meninos me pareceram agradáveis durante viagens no coletivo e tornaram-se nada mais que fotografia desbotada da memória. Escovei os dentes já decidido de não permanecer em casa. desci as escadas. passei pela rua sete. virei ao lado do Teatro municipal. entrei em uma rua escura. E finalmente cheguei fronte à Burlesquearia — Pequeno pub onde haviam festas de baixo orçamento. dei de cara com parte da turba do ônibus sentada na escadaria, acenei a mão demonstrando reconhece-los e entrei à festa sem cerimonias. rodei por entre toda a gente dançante com expressão de tragedia, procurei em mim mesmo justificativas para continuar ali e então sai sentindo um misto de frustração e cansaço. determinado a um nova tentativa somei-me aos moços no pé da escadaria e intentei uma aproximação cordial, sem delongas Miguel abraçou-me e não demorou a beijar-me úmido e ansioso.

“Obrigado por me esperar” beijou-me novamente “quando você perguntou meu nome no ônibus, não soube o que dizer”

    Gabriel de Oliveira

    Written by

    1997. São Paulo.

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