Mãe, sou gay!!!

O dia da conversa mais temida, que muitos já passaram e muitos ainda vão passar.


“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” William Shakespeare


Pelo titulo do texto parece que foi bem fácil, mas não foi, nunca é fácil, pelo menos na maioria dos relatos que lemos por ai, ou assistimos dos youtubers gays que fazem bastante sucesso.

Falando em relatos, li e assisti uns 50 diferentes antes do grande dia, mas parece que a cada relato que lia, mais medo eu sentia e mais vontade de falar também. Assiti algumas web séries também, que me deram essa vontade, posso resenhar elas depois por aqui.

Mas por quê contar ? É realmente preciso? Essa pergunta é respondida de maneiras diferentes pelas pessoas, e as próprias pessoas respondem essa pergunta diferente a cada fase da vida. Quando eu estava na minha adolescência em momento de descobertas, e mesmo depois que eu já sabia mais ou menos o que eu era e já saía e ficava com garotos, não queria de jeito nenhum contar para minha mãe, na minha cabeça pouco importaria para ela saber disso ou não saber disso, jurava para mim mesmo que nunca iria contar, e não contei mesmo. Não contava nem para os meus amigos, minha primeira amiga que eu contei foi somente quando eu tinha 18 anos, e eu também não tinha amigos gays para compartilhar essa situação. Sempre foi um segredo meu, uma coisa interna minha, nunca imaginaria nem escrever um texto como esse, mas aqui estou eu.

Ainda hoje não consigo me definir, não me chamo nem de bi, nem de Pan, ne de gay, não gosto desses rótulos fechados, mas para a sociedade precisamos estar inseridos numa sigla, para muitos então digo que sou bi, mas na verdade não me encaixo nessa definição. Para os mais cabeça fechada, digo que sou gay mesmo, explicar uma bissexualidade é muito difícil.

Passado algum tempo, conheci um cara super especial, aquela pessoa que parece que caiu do céu, que me tratava de uma maneira tão cordial, tão fofa e tão sincera (mais detalhes posso contar num próximo texto), eu então me apaixonei e descobri junto com ele o que eu era e o que eu queria para o meu futuro. Ele também não era assumido para a sociedade em completo, apenas para aqueles que realmente importava, amigos e os pais.

Passados um ano de relacionamento, eu já não era o mesmo, meus amigos já sabiam da minha sexualidade, pois era impossível esconder o amor que eu sentia. Ninguem da minha familia sabia, mas a minha vontade era de gritar para o mundo o quanto eu o amava. Mudei muito com ele e com esse amor, construí uma nova identidade e viria o próximo passo, a minha mãe.

Eu e minha mãe nunca tivemos uma relação muito forte de amizade, mas depois que mudamos de cidade e só tínhamos um ao outro ficamos mais próximos, já meu Pai tem mais de 10 anos que não o vejo, assunto que também merece um texto inteiro. Mas pela relação próxima que estava tendo com minha mãe, sentia que nao compartilhar essa coisa tão importante da minha vida era uma forma se traição. Traição também a pessoa que eu amo, ele confiava tanto em mim, por que insistia em negligenciar ele para a minha mãe? Aquilo também seria uma prova do meu amor por ele. Tudo aquilo estava me incomodando muito, e eu já tinha (tenho) vinte anos também, acho que já estava na hora.

Motivos para eu não ter contado até esse momento? Não sabia o que iria acontecer : 1) Não sabia se minha mãe iria ser radical e me expulsasse se casa poe exemplo, se tivesse essa certeza não contaria nunca. 2) Não sabia se ela iria aceitar e me acolher, se tivesse essa certeza, já teria contado. 3) Qual seria a reação da minha mãe? Não tinha a menor ideia.

Numa sexta-feira de chuva, tentando estudar na biblioteca, tomei uma iniciativa, de contar para minha mãe, daquele final de semana não iria passar, tinha chegado a hora. Estava muito angustiado, preocupado e precisava tirar isso de mim, mesmo sem saber como seria.

O sábado foi muito grande, várias vezes eu estava de frente a frente com minha mãe, olhando em seus olhos, algumas vezes ela até perguntava o que eu tanto estava olhando e eu de covarde, dizia que nada. E aquela angustia enorme, corria várias vezes para o quarto para chorar e tomar coragem, o sábado acabou e não consegui.

O domingo amanheceu, e minha mãe foi para a igreja, esperei ela chegar tremendo, angustiado, sufocado, chorava até, sabe aquela medo e coragem ao mesmo tempo? Pois era nesse mix que eu estava. Ela chegou, e adivinha? Não consegui falar novamente.

Chegava perto da minha mãe, ia até meu quarto, andava em círculo, voltava para perto dela e nada saía, travava e suava, estava passando mal até, coloquei a ideia guardada e fui me destrair. Esse domingo em especial, eu e minha mãe brincamos e conversamos bastante, a gente deu boas risadas juntos.

Onze horas da noite, aquele sentimento louco ainda me pertubava, coloquei a cabeça no travesseiro e gritei para ver se passava, e não passou. Ajoelhei e fiz umas das orações mais sinceras da minha vida, pedi para Deus, para todos os santos e orixás que lembrei o nome e também todos os seres superiores para que me desse coragem, e a coragem veio, fui para o quarto da minha mãe.

Ela já estava deitada , sentei na ponta da cama, não liguei a luz e conversamos um milhão de coisas, parece que os assuntos não acabavam, e meu coração já tinha sido vomitado e engolido várias vezes, batia tão forte que meus ouvidos o escutavam, até que chegamos ao assunto Relacionamento.

Outras pessoas poderiam falar que seria melhor falar da condição sexual antes de falar de um relacionamento, mas foi daí que o assunto veio, e desse ponto que parti minha conversa.

Disse a minha mãe que estava com uma pessoa, ela perguntou se era hora e se não tinha que focar em meia estudos, mas que eu estava com alguém eu já tinha falado antes , mas parece que ela não tinha acreditado muito. Perguntou a quanto tempo, e se eu estava em algum compromisso mais sério, disse que era só um relacionamento que eu amava muito e que estava muito feliz. Ela então perguntou se eu queria falar mais alguma coisa porque eu estava esquisito, falei que sim mas que não dava conta, foi ai que ela soltou um “Você engravidou uma menina?”, soltei um Deus me livre bem alto para ver se o papo iria pra frente.

Eu tremia tanto, mais tanto, ela então começa a me interrogar como uma investigadora policial, depois de uns 10 “fala Lourenço” eu disse que era melhor poupa-la e não falar, a covardia veio em mim e me engoliu, mais ela forçou e soltou um “É homem?”, meu coração parou e depois voltou bem forte, fiquei calado e paralisado, e nada saiu. Ela fez mais um milhão de perguntas e até que solta um “ É que não é mulher Lourenço ?” , e nesse momento aquelas orações que fiz fizeram efeito, parece que não foi minha voz que falou, mas eu disse que era isso, ela não entendeu e eu repeti.

A partir daqui escrevo com lágrimas, não vou dizer tudo que a minha mãe me disse porque não quero eternizar essas falas, se tem uma coisa que todos os relatos e vídeos que assisti me ensinaram foi a não abaixar a cabeça e ter muita segurança e convicção, e não demonstrar tristeza ou fragilidade, e foi assim que fiz. A primeira coisa que ela fez foi negar, perguntar a Deus o porquê, e dizer que era só o que lhe faltava e aquelas frases clichês de “não concordo com isso”.

Ela me pergou bem brava se eu achava isso certo, eu disse com segurança que sim e que estava feliz, ela perguntou quem era, a idade, onde morava, disse e ela até já sabia quem era, eu falo bastante dele. Falou aquelas falas homofóbicas que tanto critiquei na boca dos outros, saiu da boca da minha mãe, doeu de mais. Perguntou se não dava pra cair fora, disse que cair fora de que ? Era o que eu era e que já nasci assim.

Não!, não saiu o famoso “Mãe sou gay”, e nem precisou dele.

Depois de varias falas homofóbicas, vi o tamanho da desinformação da minha mãe, ela insistiu que eu respondesse quem era o homem e quem era a mulher da relação, disse que a pergunta não tinha nada a ver, que eu era homem e que ele também.

Aquele silêncio no quarto, perguntei para ela se estava tudo bem, ela respondeu com um suspiro. Pedi a ela que não contasse para ninguém, que estava contando pra ela porquê a amava e que devia todas as satisfações do mundo pra ela. Perguntei novamente se estava tudo bem e ela mandou um “Tá”, com uma voz seca, essa voz que durou dias, fazem poucos dias e ela ainda não voltou a falar comigo direito, acredito que ela não vai tocar mais nunca no assunto, mas espero que possamos a voltar a ser amigos.

Depois de contar o alívio não veio, fui conseguir chorar no outro dia falando com meu companheiro ao telefone, fiquei algumas noites sem dormir, e aquele gelo da minha mãe estava e ainda está acabando comigo.

Sim, poderia ter sido pior, mas foi muito dolorosos, os dias seguintes são piores que o momento, mas acredito que um dia vai passar. E quando passar, estarei aqui compartilhando com vocês.

Abraços,

Eu, Lourenço Teixeira