O assalto a fome armada

“Sem perceber, eu já deixei com fome quem queria apenas migalhas de mim, e culpei o mundo por essa miséria de amor sem fim.” Mario Franco

Com essa onda de insegurança que nos ronda atualmente, com a revolta das esposas militares, com arrastões e asssaltos frequentes, andamos sempre com medo do que pode acontecer.

Eu já sofri alguns assaltos nessa Brasília! Com os assaltantes me ameçando com facas, arma, moto, mão dentro da roupa, enfim! Histórias tão frequentes nos nossos dia a dia, que vocês já conhecem de có.

Mas o “assalto” a quem dedico esse texto, me deixou tão pensativo que achei que valia a pena registrar essa reflexão.

Depois de um dia corrido, minha barriga fazia um barulhinho e eu precisava comer alguma coisa, estava morrendo de preguiça de ir ao shopping lanchar mas ao mesmo tempo morrendo de vontade de comer uma batata frita. Como não encontrei fui numa lanchonete na rodoviária do Plano Piloto , que vende um suco natural de laranja e um cachorro quente muito gostoso.

Fiz meu pedido e aguardei sentado nas cadeiras no interior da lanchonete, até que ficou pronto, e estava do jeito que eu estava esperando, um cachorro quente quentinho, que vinha queijo e não tinha ervilha, e um suco docinho, e olha que não sou fã de nada natural, mas esse eu gosto.

É do cotidiano dessa rodoviária ter muitos moradores de rua pedintes, existem muitas discussões sobre dar ou não dar esmolas as pessoas nessas condições, eu costumo não dar dinheiro, mas dessa vez fui comovido.

Uma senhora, de bengala e bem debilitada, me abordou e me disse com uma voz bem cansada que não tinha almoçado e que queria um lanche para passar a noite. Me ofereci então para pagar o lanche a essa senhora, ela disse que poderia ser o mesmo que eu estava comendo.

Deixei minha mochila do lado de dentro da mesa, e meu cachorro quente com algumas mordidas apenas e meu suco de laranja em cima, e fui até o caixa fazer o pedido da senhora.

Feito o pedido, a moça do balcão me pergunta se eu ja tinha terminado de comer apontando para minha mesa, olho para trás e um cara estava comendo o meu cachorro quente, pegou meu suco e foi embora, tudo isso durou cerca de 4 segundos.

Respondi pra atendente que não tinha terminado o lanche e ela me diz :

— Sorte que não levaram sua mochila.

Concordei com ela, olhei pro cardápio da parede para ver se pediria outro lanche, olhei para a cara da senhora que esperava ansiosamente pelo cachorro quente, olhei para a cara da atendente que esperava alguma reclamação ou um novo pedido, olhei para minha consciência e disse um:

— É, acontece.

Pedi a balconista para entregar o lanche para a senhora quando estivesse pronto. Fui até a senhora e falei pra ela que já tinha feito o pedido e desejei para ela uma boa noite. Ela me respondeu com um “Tá bom” e um sorrisinho bege no canto da boca, que valeu por um milhão de obrigados.

Fui embora, já não tinha mais fome, a fome dos dois que eu tinha acabado de alimentar era tão grande que a minha não era mais nada. Acho que fiquei até feliz em ter sofrido aquele “assalto”, aquilo me trouxe uma reflexão e uma tomada de consciência sobre o quanto eu tenho que ser grato por não sentir fome. Me deu uma outra fome, uma fome de GRATIDÃO!

Essa história aconteceu ontem, comigo :

Eu, Lourenço Teixeira