Quando eu era criança, eu brincava de ser mãe e de ser professora. Eu sempre quis ser mãe: tive uma educação tradicional que me ensinou que a gente tinha que casar e ter filhos.

Hoje eu sou professora e sou mãe. Mas nunca imaginei em fazer isso sozinha.

Eu me casei cedo e depois de dois anos eu engravidei da minha primeira menina no primeiro mês de tentativa. Eu tinha 26 anos e o nome dela estava decidido desde os 18 por conta de uma aluna que eu adorava e quis dar o mesmo nome pra ela.

Quando minha filha tinha quatro anos, eu engravidei pela segunda vez. Mas, ao contrário da primeira gestão, meu casamento já não ia bem, e quando minha caçula tinha dois anos, eu me separei.

O impacto do divórcio não foi apenas emocional — eu me programei pra ser mãe, mas não uma mãe divorciada. A necessidade de cuidar delas se misturava com a dor da separação.

Com duas filhas pequenas, a situação financeira se complicou. Depois do divórcio eu comecei a receber a pensão do meu ex-marido estipulada em juízo, mas nunca nada além disso. Nunca tinha um extra. Nessa época eu tinha poucas aulas e o pagamento era baixo. Não dava para manter o nível que eu tinha antes. Foram muitas as dificuldades financeiras. Fiquei deprimida, com medo de não dar conta de tudo.

Com o passar dos anos eu comecei a dar aulas em universidade, e por isso meu salário começou a aumentar. Assim, eu comecei a sair da depressão, eu comecei a melhorar a autoestima, emagreci, arrumei o cabelo. Eu tinha uma babá e minha mãe me ajudava, e as coisas foram indo.

Eu conquistei um dia de cada vez.

Alguns anos depois, eu conheci uma nova pessoa e me casei pela segunda vez. Ele pediu para ter um filho comigo e eu, cega de amor, aceitei. Tudo o que eu pensava era que agora eu teria uma família como eu sempre sonhei.

Só que as coisas não deram certo. Ele tinha sérios problemas de saúde e o meu casamento acabou antes do meu filho nascer, para minha total surpresa e frustração. Foi uma gravidez difícil porque, além de todas as dificuldades que eu já conhecia bem, eu tive depressão. Além disso, eu passei quase toda a gestação acreditando que eu seria mãe de uma terceira menina — todos os ultrassons mostravam isso — e só no final descobri que meu bebê era um menino.

Depois da segunda separação as finanças mudaram de novo, porque eu não conseguia trabalhar tanto durante a gravidez e estava deprimida. Aquilo era uma sensação de fracasso muito grande. Era como se eu não tivesse capacidade de segurar um casamento.

Quando meu filho nasceu a minha única escolha era trabalhar mais. Eram três empregos que me tomavam 64 horas por semana: manhã, tarde e noite de segunda à sexta. Meus três filhos ficavam em período integral na escola e à noite ficavam com a minha mãe ou com babá. Eu ficava com eles um pouquinho à noite. Quem estivesse acordado me via, quem estivesse dormindo ganhava beijo de boa noite.

Meu coração ficava apertado, mas eu não tinha opção. Eu vivi essa rotina por dois anos.

Depois desse período eu consegui passar a trabalhar em só um emprego. Antes eu era coordenadora de um curso de inglês e trabalhava em duas faculdades; mas eu consegui assumir a coordenação de um curso na faculdade, além de dar aulas no mesmo local. Agora são 40 horas semanais — ainda muito para quem tem três filhos e cuida deles sozinha.

Atualmente eu acordo de manhã e deixo minhas filhas às sete horas na escola. Meu filho vem comigo, vai dormindo no carro de pijama. Eu volto pra casa e cuido da casa, faço comida, supermercado, lavo roupa. Sou dona de casa. Na hora do almoço eu busco a minha filha do meio — a mais velha passa o dia todo na escola. Depois eu vou pra faculdade, que fica em outra cidade. Minha filha do meio não gosta de ficar sozinha em casa e me acompanha. Leva o material da escola, o computador, e fica por lá, estuda, se distrai. No fim da tarde eu volto e pego a mais velha e o caçula na escola, volto pra casa, deixo os três lá e volto pra faculdade. Algumas vezes eu os deixo na porta do prédio, nem dá tempo de subir com eles. Dou aula e chego em casa quase meia-noite.

Antes eu tinha medo de não conseguir criar um menino sozinha, sem um marido. Mas já aprendi que isso é besteira. Meu filho é feliz, bem resolvido. Ele tem uma infância feliz. Ele tem contato com o pai, ama e é amado por ele e pela família paterna, então não tem esse problema. Pra ele é natural. Tudo que é tratado com naturalidade não vira ferida.

Depois de tanto tempo e tanta coisa, eu consegui transformar a sensação de fracasso em uma sensação de vitória. Porque os meus filhos estão sendo criados com amor, com dignidade. Ainda tenho dias difíceis. Quando um deles fica doente é terrível e a ajuda da minha mãe é muito valiosa.

Eu tive uma revolução espiritual na minha vida e consegui curar a minha depressão. Eu sou uma mulher linda e o problema não é comigo.

Eu vivi relacionamentos destrutivos com pessoas que não queriam as mesmas coisas que eu. A parte espiritual me tirou de uma depressão muito forte e hoje eu posso contar a minha história sem chorar.

Minha rotina é pesada. Mas a minha cabeça está sempre ocupada e isso é maravilhoso;

Agora eu tenho um filho que está aprendendo a ler e uma que está decidindo sobre o vestibular. Esse é o meu universo.

Eu espero que meus filhos sejam pessoas de verdade. Eles precisam ter uma estrutura de caráter bem formada. Eles sabem que são amados e isso dará a eles maturidade para enfrentar as dificuldades. Porque elas virão.

A vida é assim. A gente programa de um jeito que a gente acredita que é a ideal, mas os imprevistos vêm.

E hoje eu estou bem.”

Anna Renata Marcondes, 41 anos, professora, mãe de duas meninas de 15 e 11 anos e um menino de quatro anos.

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