UM MÊS, DOZE DIAS, VINTE E DUAS HORAS, E TRINTA E CINCO MINUTOS.

UMA PÁGINA E MEIA #01

Faz mais de um mês que meu pai não fala comigo. Não sei se você já passou (ou passa) por isso. Mas eu acho que dá pra imaginar como é ruim esse sentimento. O cara que um dia já me teve dentro do saco dele hoje não tem mais saco pra falar comigo. Triste.

Eu tento puxar papo com ele, em vão. Um sentimento de incapacidade toma conta de mim, porque afinal, pai e mãe são as últimas pessoas do mundo que eu achei que fossem parar de falar comigo. A menos que meus pais fossem os Richtofen, o que não é o caso.

Mas eu como bom filho, não me canso de tentar restabelecer contato com aquele que um dia trocou minhas fraldas, aquele que um dia teve nojo de trocar as minhas fraldas, aquele que um dia quase vomitou ao trocar minhas fraldas.

A cada dia que acordo reforço a minha meta de vida, que é voltar a falar com o meu pai. Eu sei que pode parecer exagero da minha parte mas acredite, não é. O meu pai não fala comigo há mais de um mês. Para ser exato: um mês, doze dias, vinte e duas horas e quarenta e dois minutos.

Se você já ficou sem falar durante esse tempo com uma das pessoas que você mais ama no mundo, vai entender o que está se passando na minha vida. É muito difícil conviver com tal situação. Um mês, doze dias, vinte e duas horas e quarenta e três minutos.

Outro dia uma amiga me disse: “você está fazendo tempestade em copo d’água. Eu perdi minha mãe aos quinze anos, no dia da minha festa de debutante. Meu pai faleceu no dia seguinte, quando descobriu o valor da festa que ele pagou e ninguém foi porque estavam todos no velório da minha mãe.”

Eu sei que não deve ser nada confortável perder a mãe no dia da festa de quinze anos. Até porque todos os preparativos, que são a parte chata de qualquer festa, já tinham acontecido. Por exemplo, se a mãe dela tivesse morrido uns três meses antes, talvez o pai dela ainda estivesse vivo. E sem dívida.

Outro dia mandei mensagem no whatsapp e qual foi a resposta dele? Nenhuma linha de texto. Sequer uma palavra. Nada. Um mês, doze dias, vinte e duas horas e quarenta e oito minutos que meu pai não fala comigo.

Porque agora ele descobriu que dá pra mandar vídeo no whatsapp. De acidente de moto a gatinho fofo. De piadas de salão a homem adúltero que é pego com as calças na mão, literalmente.

Agora tudo é vídeo. Não há mais diálogo.

Puta merda, pai!