Essa também vai passar

Isso também vai passar. Está aí uma das expressões que mais ouvimos quando o momento é difícil, do chão você já passou faz tempo e o que lhe restou é a lama. E também é uma das que mais falamos quando é o outro que está com o coração estraçalhado, seja por causa de um amor que se foi, de um amor que se acabou ou da morte que chegou. Apesar de vivermos em um mundo onde coisas prevalecem sobre pessoas, a dor que corrói geralmente está ligada a pessoas e não a bens materiais, o que me faz crer que ainda há humanidade na humanidade. O cara pode até lamentar que perdeu a Mercedes-Benz na enchente e que ele não tinha seguro, mas passa.

Mas por mais que você saiba que esse aperto também vai passar parece mesmo é que nunca vai. Passa o dia, passa a noite e nada. Às vezes demora dias, às vezes meses, às vezes anos e às vezes até décadas. Mas não é que passa? Parece que um dia você acorda e deixa a dor dormindo embaixo do cobertor e, então, você anda nas pontas do pés que é para não acordá-la. Ao sair do quarto, encosta a porta e começa a cantar. A dor pode até despertar no meio da tarde e te fazer uma visita entre um por do sol ou outro, mas depois ela dorme de novo e um dia não levanta mais. Enquanto isso é você quem está acordando para uma nova vida.

Não conheço ninguém que tenha passado por maus bocados e tenha passado incólume. No momento que você desperta, cheia de esperanças, você não é mais o mesma. Não que tenha mudado para melhor ou para pior, mas é como se uma árvore com folhas secas tivesse sido chacoalhada pela ventania e uma nova Primavera chegasse, mesmo não sendo tempo de flores. Mesmo que você entenda a morte como os orientais, não passará ileso ao luto de alguém próximo ou terá o entendimento pleno de que se a pessoa que você ama quer partir, que parta, e ainda ficará feliz com isso.

Quando tudo isso também passa, algo mudou ali no seu DNA e os pequenos problemas serão para sempre pequenos e não mais invadirão a sua vida sem que haja permissão. Já os pequenos prazeres serão delícias gigantes e não precisarão nunca mais bater à porta para entrarem no seu quarto, na sua sala e na sua vida. Você será capaz de identificá-los antes mesmo que eles dobrem a esquina da sua rua. Seus momentos serão devidamente aproveitados ao lado de quem realmente vale à pena e esforços não serão mais feitos em vão.

Aprendi que o sofrimento não é apenas bom para fazer samba ou poema, mas também para entender a dor do próximo. Afinal, o sofrimento não é exclusividade da sua casa. Alguém da sua família está doente? Lá na casa da vizinha também tem, talvez ela só não tenha te contado. Seu filho dá trabalho na escola? O amigo do seu filho parece que é três vezes pior. Clonaram seu cartão? Ficou sabendo que parece que entraram na casa do cunhado da fulana e levaram tudo? Seu marido te largou para ficar com outra sem mais e nem menos? E o marido da sua vizinha que sumiu levando o filho embora? Toda dor precisa ser sentida e para nós ela sempre será maior do que a do outro. Mas não é. Não para o outro. A dor é de quem sente. E só.

Quando tudo, enfim, passa e você já não é mais o mesma lembra, enquanto a sua dor dorme, que ainda há muita vida para ser vivida e que, se depender de você, essa dor não despertará de novo por mais que haja muito barulho. Mas caso uma dor vestida com outra fantasia bata à sua porta e você não conseguir impedi-la de entrar, ofereça um café e espere que vá embora. Depois ponha mais essa para dormir porque ela também passará.


Originally published at nossocortico.wordpress.com on August 6, 2015.

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