Lugar de mulher é na Amazônia

Há um ano eu pisava em uma Terra Indígena pela primeira vez. Era o começo do meu ano sabático pela Amazônia brasileira em busca das histórias dos povos da floresta: ribeirinhos, pescadores, quilombolas e indígenas por lugares onde o destino se encarregasse de me levar.

Sou jornalista, tenho 36 anos, e a intenção era conhecer um Brasil que durante todos esses anos da minha existência eu havia ignorado por completo. Queria saber como essas pessoas viviam, o que comiam, qual era a relação delas com o dinheiro, como se organizavam e como resistiam à engrenagem trabalhar-comprar-pagar contas- se endividar — comprar um apartamento maior — trabalhar mais. Peguei minhas economias, pedi demissão do trabalho, comprei uma passagem para o Acre e tchau, tchau.

Foram, até agora, cinco estados — Acre, Amazonas, Amapá, Pará e Rondônia -, cerca de 600 horas navegando por rios de diferentes cores, tamanhos e personalidades e milhares de quilômetros rodados pelas esburacadas rodovias do país. Comi de tudo um pouco, fiz amigos e conheci a generosidade e a solidariedade daqueles que convivem com a ausência e a omissão do Estado e, ainda assim, não dividem o que sobra, mas tudo o que possuem, mesmo que o tudo seja quase nada.

Subi e desci muito barranco, carreguei muito balde de água, tomei banho de rio e de igarapé, fui picada por mosquitos, muitos mosquitos, troquei o shampoo e condicionador importados pelo sabão de coco, o salto pelo chinelo, a maquiagem pelo protetor solar, as roupas sociais por saias soltas e coloridas. Passei noites em claro porque não me cansava em olhar as estrelas no céu. Participei de rituais ao pé da samaúma, a árvore rainha da floresta. Passei frio e passei calor. Dancei, sorri, chorei, vivi. Um ano viajando sozinha pela Amazônia. Eu e minha mochila de 50 litros com poucas peças de roupas, um chinelo e duas lanternas.

Durante esse tempo, não foram poucas as perguntas e comentários que ouvi, vindos de homens e mulheres, sobre o perigo de viajar sozinha pelos rincões do nosso país. “Meu Deus, minha irmã viajando sozinha pela Amazônia”, escreveu o mais velho da família quando avisei da minha decisão. “E você sofre muito assédio dos homens nessas comunidades”, perguntou uma espectadora durante uma palestra. “Mas ela está lá sozinha, nenhum amigo homem quis ir junto?”, pergunta a amiga da tia.

Ganhei até uma faca de um primo, presente esse que veio com o seguinte recado: vai viajar muito sozinha por aí, deixa essa faca sempre com você. Eu usei muito a faca, mas para limpar peixe, descascar laranjas, cortar cana e me livrar de matos indesejados. Obrigada, primo.

Para todos esses questionamentos a resposta é esse texto, que espero servir como um incentivo às mulheres viajantes desse país e também para mostrar que os nossos rincões estão repletos de pessoas honestas, dignas, gentis, prestativas e solidárias.

Em levantamento feito em 2015 com 9.852 internautas, a comunidade de viajantes TripAdvisor constatou que 25% das brasileiras pesquisadas já tinham viajado sozinhas e planejavam repetir a experiência; entre as estrangeiras, 81% das australianas e britânicas deram as mesmas respostas. Outro levantamento, publicado no site inglês Daily Mail, mostra que o Brasil está entre os dez países mais perigosos para mulheres que viajam sozinhas e entrou na conta naquele momento devido ao crescente número de estupros. Junto com outros países da África, Ásia e América Latina, as viajantes do sexo feminino estão nesses lugares mais expostas à misoginia, incômodos e, em casos extremos, perigo.

Claro que a questão da segurança é crucial e antes de embarcar para a Amazônia eu me esforcei para criar a maior rede de contatos e relacionamentos possível. Fui apresentada para amigos de amigos, parentes de parentes e quando percebi já nem sabia mais quem é que tinha me apresentado determinada pessoa tamanha a quantidade de amigos com quem eu estava conectada pela floresta sem nem ao menos ter chegado lá ainda. Foram seis meses de preparação com leituras, conversas, estudo de mapas e planejamento. Planejamento esse que mudou totalmente conforme a viagem começava. Que bom!

Fui recebida em comunidades localizadas a dias de distância da cidade mais próxima com jantares de galinha caipira — prato nobre da floresta -preparados especialmente para mim, fui hospedada em quartos em casas simples no meio da mata e que foram arrumados para a minha chegada. Sempre fui tratada com muito respeito e gentileza. Dormi em casas de desconhecidos, em ambientes sem portas ou trancas. Me hospedei em hotéis de R$ 30 a diária, em hostels, peguei carona em carros e barcos, dormi em redes ao relento.

Viajei com equipamentos de trabalho como computador e máquina fotográfica e a única coisa que me furtaram foi uma canga de praia que esqueci numa festa e no dia seguinte não estava mais lá. E não, eu não passei por nenhum momento constrangedor dentro das comunidades tradicionais da Amazônia.

A única vez que eu tinha viajado sozinha antes disso foi em 2013 para pedalar pelo Deserto do Atacama, no Chile, e foi lá que aprendi que escolher a solidão pode ser libertador. É bom cuidar do seu tempo, só fazer os passeios que está com vontade de fazer, acordar e dormir no momento que desejar.

Além da segurança, o respeito à cultura local também é fundamental. Muita gente perguntou se eu tomava banho de rio nua. E a resposta é não. E por que não? Porque nem mesmo as pessoas das próprias comunidades ou aldeias fazem isso, com exceção às crianças ou se não há ninguém por perto, o que é raro. Os homens de bermuda e as mulheres, muitas vezes, se banham de vestido mesmo. Em cada comunidade, um tipo de organização social. E entender essa organização foi o que procurei fazer em cada uma delas. Uma forma de respeito e de me preservar nos mais diferentes aspectos.

Lembro agora de uns gringos que estavam em uma aldeia e começaram a andar pelados para cima e para baixo, enquanto os índios mesmo estavam de roupas. Foi então que a cacique decidiu interromper a liberdade dos estrangeiros no Brasil e disse que não era bem assim não que as coisas funcionavam ali. Um exemplo de como é preciso conhecer as regras de sociedades que se organizam tão diferentes das nossas ao se aventurar por aí. Um ano sabático que valeu mais do que qualquer mestrado, doutorado, doc ou pós doc.

No começo do ano fiz uma pausa da viagem em São Paulo para resolver umas pendências burocráticas. Estava descendo a escadaria do metrô Brigadeiro quando vejo um homem tentando passar a mão na vagina de uma adolescente que conseguiu se safar ao colocar o guarda-chuva na frente do corpo. Pelas ruas do Centro continuei a me assustar com as abordagens vulgares e agressivas como os assobios, os “nossa, que gostosa” e “essa aí eu pegava fácil.” Nosso país é sim misógino e é preciso cautela, mas eu voltei correndo para a floresta depois desse tempo na cidade. Me sentia mais segura lá.

A verdade é que eu nunca poderia ter tido companhia melhor se não a minha própria nesses 12 meses e, talvez, se estivesse acompanhada, não teria conhecido tantos homens e mulheres incríveis, que se entendem ricos somente pelo fato de terem nascido junto à natureza. E durante todo esse tempo não houve um só dia em que eu não quis estar desfrutando da companhia dos povos da floresta, com suas músicas, rituais, beleza e sabedoria.

Vai lá, escolha seu destino e sua mochila e boa viagem.

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Eu na Floresta

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