Vida é tempo. E a morte também

Setembro chegou e uma sensação de incômodo indecifrável me atormentava. Não entendia a razão da angústia que me retirava o ar até que alguém mencionou a data de um evento em 27 de setembro e lembrei. É a data do aniversário do meu pai. É ou era. Nunca sei direito se devo mencionar as pessoas mortas no presente ou no passado. Me confundo com o tempo, que não se cansa de lembrar que ele é o rei de uma república nada democrática em cada nova linha de expressão que aparece no seu rosto depois que a imaturidade dos vinte anos desaparece e você precisa decidir se começa a encarar os botoxs e preenchimentos desde já ou encara a proximidade dos quarenta com a leveza contrária à gravidade que derruba as partes mais frágeis do seu corpo.

Vinte e sete de setembro tem show do Aerosmith em Curitiba. Também é dia de Cosme e Damião. Também é o Dia Mundial do Turismo e quando as forças talibãs controlaram Cabul. E também o aniversário do meu pai. É ou era o aniversário dele. Quem morre, morre duas vezes. E a data do nascimento torna-se mais ou menos importante como o dia em que ele respirou pela última vez.

Sempre tenho que fazer as contas de quantos anos ele faria se ainda estivesse circulando por aqui com seu chinelos arrastando pelo corredor da sala e o cheiro de café e cigarro invadindo a cozinha. Talvez 74 ou 75. Não sou boa com idades. Erro a dos meus sobrinhos, afilhados e amigos e sempre preciso criar coragem para perguntar às mães quantos anos mesmo eles estão fazendo sem parecer que eu seja relapsa ou desinteressada. E é comum que eu me desculpe por isso.

Mas meu pai não se importaria com uma pergunta dessas. Ele não se importava nem mesmo com o próprio aniversário. Eu era adolescente quando acordei bem cedo uma manhã de 27 de setembro e invadi o quarto para talvez, inconscientemente, ser a primeira a lhe dar os parabéns . E para a minha surpresa ele perguntou “parabéns pelo o que, filha?” Porque hoje é seu aniversário. “ah, é mesmo.”

Em novembro serão dois anos da morte dele e dessa data não preciso me esforçar para lembrar dos detalhes que corroeram nossas almas com perguntas sobre o sentido da vida e a importância da morte. A lembrança que ainda ecoava pela casa como se ele estivesse nos esperando no escritório com seu joguinho de palavras-cruzadas nível dificílimo que eu só me atrevi a desafiá-lo uma vez e me arrependi nos primeiros dez segundos. Não que a casa guardasse a sua alma, mas era como se suas últimas ações tivessem ficado retidas em cada cômodo. Talvez para sempre.

Foi necessário um ano e meio para que Adoniran Barbosa começasse a entoar o Trem das Onze sem que eu corresse para pular a faixa. Estava na Amazônia quando o cantor que fazia meu pai cantarolar e dançar com os braços abertos surgiu nos meus fones de ouvido e eu pude, enfim, ouvir e sorrir. De saudade, de satisfação pelo legado deixado ou talvez apenas em uma nova forma de melancolia ainda desconhecida.

Também tenho comido pudim, que eu nem gostava tanto assim, mas como era a sobremesa preferida dele resolvi que estava na hora de entender o que poderia haver de tão bom em cada colherada daquele doce da vovó. A cada pedaço do doce ingerido, a certeza de que a vida e a morte se misturam no grande caldeirão da existência em que estamos enclausurados. Vida é tempo. E morte também.

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