Mariana através do rap (e o que ela encontrou por lá)

Uma viagem de três meses pelo Laboratório Fantasma, a Harvard da produção independente

Recentemente voltei de uma das viagens mais belas e complexas da minha vida, que fez jus ao tipo de experiência que costuma me marcar para sempre. Não foi a primeira vez que embarquei planejando ficar e, ao mesmo tempo, sabendo que precisava de um tempo para ver se era esse mesmo meu destino. 
Não era. 
Porém, da vivência no Laboratório Fantasma trouxe comigo dois souvenirs: um potinho de paz por ter tentado (e em boa parte, conseguido) realizar um sonho, e um baú enorme de incríveis lembranças dos meses em que convivi com um ídolo.

É engraçado porque eu não tinha racionalizado sobre trabalhar com o Emicida. Pensava sempre na empresa, nos bastidores da produção e não que, sei lá, ficaria meia hora num carro conversando com ele a caminho de algum lugar ou trocaria uma ideia por whatsapp. 
Não sei em que mundo eu estava, mas ele está com os pés bem fincados na terra. É um desafio colocar ele num pedestal, a conversa é sempre horizontal. Quando não está viajando em turnê, vai todos os dias à empresa. Almoça, toma café, come salgadinho com os funcionários.

Quem trabalha lá foi selecionado a dedo por ele e pelo Evandro Fióti, seu irmão e sócio. 
Todos seguiram basicamente a mesma lógica de confiança e dedicação. A maior parte acompanhava religiosamente os shows, a ponto de chamar a atenção e ele pessoalmente entrar em contato e contratar. Foi assim, por exemplo, com o And, que hoje está lançando a própria carreira. Recentemente, ele não só debutou em um palco com Emicida no Festival de Verão do Urban Stage, como foi a matéria do dia no Blog.

Essa, aliás, é uma das coisas que achei belas no universo do rap: um leva o outro junto. Todo mundo tem uma espécie de padrinho, e no momento quem mais vi acompanhar o Emicida foi o Coruja BC1, um cara que me impressiona muito pela segurança e presença de palco. 
Ao contrário do mercado MPB, que geralmente exige participação de alguém famoso no show de um desconhecido, no rap o artista já estabelecido é quem convida alguém em início de carreira.

Outra diferença que percebi com a MPB é em estúdio. A música termina de nascer ali, naquela hora. Se você acompanhar os documentários e fotos de bastidores, sempre verá os artistas com um caderninho e caneta na mão, concentrados. Nenhuma ideia está fechada até que o arquivo seja finalizado. Quando é em dupla, cada um leva sua parte, fazem o refrão ali na hora. É freestyle de estúdio.

Também gosto da honestidade das relações interpessoais desse universo, embora muitas vezes ela torne a cena um octógono. Se um empresário não engole o mau caratismo do outro, não se falam. Se um cara fodão não tá afim de cumprimentar o outro cara fodão, ele simplesmente não o faz e acabou. Não é essa coisa "oi querido(a)", que sempre me incomodou. 
Não concordei com tudo o que ouvi por lá, mas vou ser eternamente grata pelos momentos em que me disseram as coisas sem rodeios.

Afinal, fui uma exceção em tudo isso. Minhas únicas referências de rap na vida eram Gabriel O Pensador (ídolo de infância) e Criolo. De Racionais, conhecia Diário de um Detento, e talvez só o começo. Não virei expert no gênero, mas gosto de ter descoberto Rodrigo Ogi, Rael e Kamau
Acredito que fui uma exceção coerente: eles querem atingir outros públicos além do rap, e estão conseguindo. Eu não teria ouvido a primeira mixtape se não fosse o Sobre Crianças Quadris Pesadelos e Lições de Casa. E mesmo assim eles me deram abertura para chegar lá, expor minhas ideias a respeito do que poderia ser a comunicação do Lab. E isso é inesquecível, especialmente porque batia com o que eles planejavam. (Também foram bem corajosos em deixar eu editar vídeos… rs)

Decidi contar sobre a minha experiência porque me sinto privilegiada de ter visto de perto muita coisa acontecer. De um dia ter escrito sobre como a música do Emicida impactou profundamente minha vida e causou uma pequena revolução nela, e meses depois estar representando as ideias dele com meus textos em seu blog
Tenho a noção de que na história deles sou um grão de areia, mas na minha eles foram uma tonelada deles. 
O motivo que "saímos" é esse que me leva até você nesse minuto: chegou a hora de escrever, literalmente, minha própria história. E passado aquele momento estranho inicial do romper de um projeto, fica a certeza de que foi a decisão correta.

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Abaixo, dois momentos distintos:

Em setembro de 2015, antes de entrar no Lab, uma análise da carreira de Emicida e da empresa para meu finado blog de música: https://goo.gl/wXN0hk

Em fevereiro de 2016, entrevisto Fióti para o site do Lab, e ele detalha a participação de Emicida em seu primeiro disco, e desfaz mitos sobre a relação dos dois: http://goo.gl/idzR3X