A epopeia de Zuza

Zuza Zapata. O nome soa como um termo que legitima algo. Cogito ergo sum, ad infinitum, citra petita… Zuza Zapata, eis que se faz algo presente, mas o quê?
O poeta macaense começa sua apresentação declamando Mário Quintana: “Todos os poemas são um mesmo poema / Todos os porres são o mesmo porre […] / Todas as horas são horas extremas”. Com os riffs que circulam por algo mais próximo do heavy metal e depois algo que parece um sambinha torto, cada composição do artista é declamada juntamente com um repertório musical de uma banda bem casada e harmônica. A construção da atmosfera está concluída, resta respondermos as primeiras questões.
O que se faz presente no show de Zuza Zapata? Todos os poemas são o mesmo poema?
É difícil decidir sobre elementos diferenciais e justificativas nessa altura do campeonato, onde ouvir música e se relacionar com sua cena é estar disposto a não dar uma atenção contínua a apenas um trabalho, mas ser capaz de desenvolver uma atenção multifocal para abranger tantas peculiaridades. Felizmente eu pude ter uma atenção monofocal ao trabalho de Zuza.

Recentemente foi a quinta vez que fotografei um show dele. De novo a tarefa me era oferecida, de retratar toda a epopeia que é sua apresentação. Digo epopeia porque, como em uma tragédia clássica, o show pode ser dividido em atos, cenas, pontos de virada, cantos… Mas cabe a cada ouvinte escolher a ordem estrutural da narrativa.
Zuza fala sobre amores impossíveis e possíveis, sobre classe social, sobre perspectivas políticas, sobre sonhos, sobre sexo, sobre questionamentos psicológicos, sobre questões da psique. Numa mesma forma de trazer a mensagem, sem um descomedimento na fala ou nos gestos, vestido com elegância, falando com timbre e dicção invejáveis, ele não quer ser uma estrela.

Não sendo um show de uma estrela, Zuza é coadjuvante de sua própria epopeia, narrador-personagem que torna suas poesias um lugar sem protagonista, permitindo ao público a armadilha de se colocar nessa alcunha possível. Mas talvez não seja, talvez não seja o meu ou o seu amor e abrigo, talvez cada ato da apresentação seja um lugar para ninguém, onde todos nós, inclusive Zuza, estamos observando algo sendo construído para ser emoldurado e virar obra de arte.
O desfecho de tudo é que cada obra de arte será uma obra de arte diferente, cada sensação será também diferente, Zuza é um grande mágico que nos pôs em sua armadilha no início afirmando dialeticamente o contrário do que será a experiência, para no fim nos darmos conta, ao analisarmos a experiência do show, que pudemos entender melhor o que é poesia, o que é música, o que é arte. Uma dialética hegeliana transformada em música, isso é Zuza Zapata.