Montanhas em Nós
Estou nu, embora camadas de algodão, poliéster e lona me protejam.
Caminho. Respiro, inspiro, contando meus passos. A cada cem, recomeço. Tento coordenar os pés, protegidos por botas emprestadas, e a respiração — ofegante desde sempre. Escrevo um lembrete mental: beber menos; exercitar-se mais. Arrependo-me de haver abandonado o carro e resolvido cobrir o trajeto a pé; sinto saudades do sofá e da calefação da sala. Basta elevar o olhar, no entanto, admirando as formas que o tempo e a (in)ação humana deram às pedras, aos descampados verdes, ao espaço onde outros animais coexistem comigo vivendo em outra era, basta acertar o olho e tirar fotografias imaginárias, projetando as muitas histórias que contam e presenciaram, para tudo estar justificado.
A sensação é de pertencimento.

Caminho. Respiro, inspiro, encarando os silvos do vento — dentro e fora de mim. As incontáveis pedras confundem-se com as que carrego. Sem aviso, a voz do velho reaparece, reproduzida num desses gramofones da memória. Lembro dele sentado à mesa, bebericando o café amargo e morno das tardes de domingo vigiado pelos olhos escuros de Tião, nosso cocker spaniel. Gastava as horas entre o almoço e os jogos do Figueira tentando vencer os jornais da semana, esparramados na mesa de três cores. Num desses muitos domingos que, amalgamados, parecem um único e contínuo dia, ele sublinhou a abertura de uma matéria sobre Veneza e entregou-me dizendo é pra isso que precisamos dos poetas, guri, porque eles dizem o que a gente quer e não pode, ou não sabe. A frase, de Fernando Pessoa, pregava:
As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
Aqui, contando passos e encarando as cusparadas espessas do vento em meu rosto, imaginando histórias de pedras e árvores e bichos, me pergunto:
— Que serei eu?
***
Sentado, mastigo uma barra de cereais. Ouço motores distantes na autoestrada. O olhar não dá conta da extensão do terreno, mas posso discernir, solitária entre pedras e gravetos, uma bota de camurça. Desbotada, o marrom variando conforme a incidência do sol. Ponho-me em pé. Agarro a câmera e me aproximo, cauteloso — como se ela fosse um bicho arisco, propenso a fugir ao menor movimento. Enquanto clico, o cérebro trabalha rápido, inundado por uma voz fanhosa e riffs estridentes:
I wish that for just one time
You could stand inside my shoes
And just for that one moment
I could be you
Tal qual fazia nos exercícios da escola, procuro imaginar a história do objeto, calçar a bota alheia. Pelo tamanho, pertenceu a um homem — ou mulher bastante alta. Não, não… A hipótese do homem é mais plausível.

Um ermitão?
Um desses aventureiros de redes sociais?
Alguém querendo sair da rotina e viajando para mudar — como escreveram — , não de lugar, mas de ideias?
Que motivo o conduzira até aqui? Mesmo o meu não está claro.
Afastado, sozinho, talvez sóbrio, ele possa ter realizado que viver é uma escolha, embora não pareça. Escondida e encoberta pelo ruído, clara nas raras lufadas de beleza, dissolvida na mediocridade dos dias, mas ainda uma escolha. E o reverso da medalha, a outra opção, teria perguntado o solitário homem da bota marrom, seria a morte? Discordo; a morte é a culminação da existência, o extremo oposto da linha desenrolada desde o nascimento. Pra uns mais, pra outros menos. Morrer não é o oposto de viver. Se caísse agora, batendo a cabeça, quebrando o pescoço, o fim seria instantâneo. Poderia agonizar, mas o ato de morrer é único; viver não. Viver é um amontoado de experiências e mesquinhez; suor, saliva e desejo — e fracassos, feito perder a bota de camurça numa longa trilha.
Teria o homem pensado nisso?
Um pássaro mostarda cruza o céu rosado em direção à copa dos pinheiros. Confiro a bússola analógica: o norte está à esquerda. Começa a escurecer e preciso voltar ao carro.
***
O velocímetro indica: oitenta quilômetros por hora. Os faróis do carro abrem caminho; estendem braços compridos e delgados para rasgar o breu. Do lado de cá do para-brisa, vislumbro o contorno das montanhas acima do longo céu pontilhado de estrelas — feito as sardas na pele de minha primeira namorada — e a pergunta assomando:
— Quais delas estarão mortas?
Lera uma vez que muitas estão de tal modo afastadas que, ao encontrarmos a luz, a estrela responsável por emiti-la já deixou de existir. Recordo o solitário homem da bota marrom e nossa possível epifania compartilhada. Os olhos lodosos de Tião; a voz do velho; o corpo sardento de Virgínia — e onde estará Virgínia? Histórias de pedras e árvores e bichos; a frase de Pessoa e o questionamento sem resposta:
— Que serei eu?
O velocímetro indica: noventa quilômetros por hora. As rodas deslizam por sobre o tapete betumado e a fumaça do escapamento faz as vezes de névoa. Dentro em breve esquecerei a metafísica para desembarcar, modorrento, na rotina esquálida. Reafirmar a escolha soterrada pela frustração do ciúme e da saudade, sublime na precisão do sexo e no mistério da linguagem, dissolvida na vulgaridade dos dias. Percebo as primeiras construções. O rádio, sincronizado ao telefone, alerta e corrobora:
We’re on a road to nowhere
We’re on a road to nowhere
Texto produzido para o livro homônimo do fotógrafo
Felipe Abreu.