Sufre como loco, pero está vivo

Sábado de chuva fina em Montevidéu. Os passageiros se apertam no ônibus, linha 64, que cruza os três quilômetros da principal avenida da cidade, a 18 de Julio, em direção ao Estádio Centenário. A traseira do veículo está repleta de camisas aurinegras — são os carboneros, torcedores do Club Atlético Peñarol. Ao contrário da algazarra usual, vão concentrados, silenciosos. A situação do time não é das melhores. Desde a derrota para o Santos, na última Libertadores da América, o clube ocupa posições intermediárias nos dois turnos do campeonato uruguaio: Apertura e Clausura. Provavelmente em uma dessas cabeças de feições mouras, contas são feitas e retrospectos são lembrados. Caso o Peñarol vença, afirma um passageiro de trench coat que certamente não irá ao estádio, “saímos da 7ª [posição] para a 3ª”.

É o ônibus chegar a Parque Battle para o imponente Estádio Centenário de Montevidéu dar as caras. Construído em tempo recorde — nove meses — para a primeira Copa do Mundo de Futebol, o estádio foi batizado em homenagem ao aniversário de cem anos que a primeira constituição uruguaia completava em 1930. O primeiro tento foi marcado após um chute de fora da área — a dezesseis metros do gol — de Héctor Castro, El Divino Manco, em 18 de julho do mesmo ano, quando a celeste enfrentava o Peru. Ironicamente, Castro foi grande ídolo do Nacional, o maior rival do Peñarol.

O turista desavisado que tenta comprar ingressos no Centenário em dias de jogo dá com os burros n’água. Só é possível adquiri-los em pontos de venda distantes do estádio. Questionado sobre a motivação de tal medida, o funcionário da bilheteria responde: “por motivos de segurança”. Resta contar com a sorte; procurar algum dos cambistas que não esteja sendo enquadrado pelos policiais uruguaios e comprar um ingresso de 90 pesos (cerca de R$ 9,00) por 200.

Dentro do estádio, os 12ºC acrescidos de vento forte e chuva insistente castigam o lombo dos torcedores de Peñarol e Cerro. Os 76 mil lugares estão longe de ser ocupados. Excetuando a área reservada às duas torcidas organizadas — atrás de uma goleira para a carbonera; no canto oposto, próxima a bandeira de escanteio, para a torcida azul, do Cerro — o estádio está praticamente vazio. Nem tribunas e sociais, áreas nobres e cobertas, estão lotadas. Enquanto o jogo não começa, um vendedor passa oferecendo café, a máquina de expresso presa às costas. Mais adiante, alguns torcedores tentam fugir da garoa debaixo das marquises, tomando mate, fumando um baseado.

Às quatro da tarde os times entram no gramado estropiado. Em cinco minutos o Cerro daria o pontapé inicial. Com a bola rolando, as torcidas cantam o tempo todo, a despeito do futebol digno de um Marcílio Dias versus Guarani de Palhoça. As exceções ao mau futebol são um atacante do Cerro e os dois extremos do Peñarol: goleiro e centroavante. O centroavante, negro e alto, chama-se Zalayeta. “Corre desajeitado, conduz a bola aos encontrões, mas posiciona-se muito bem”, diz um torcedor, comparando-o a outro centroavante de mesmo estilo, o brasileiro Dadá Maravilha.

Pessetti, Rodrigo e eu, antes da chuva, no Estádio Centenário

O primeiro tempo vai embora sem gols, mas nos primeiros minutos do segundo o juiz encontra um pênalti para o Peñarol: um a zero. O gol cala a torcida cerrense enquanto a aurinegra grita, pula e xinga o adversário. Passados dez minutos, após um escanteio, a comemoração troca de lado. Com o empate, o jogo consegue ficar mais feio, marcado por disputas intermináveis no meio-de-campo. Aos 41 minutos, quando o resultado parecia definido, o Peñarol faz 2 a 1 em um contra-ataque. Com 44, em jogada pela ponta direita, o gol que fecha a conta: Peñarol 3 x 1 Cerro. É a deixa para que a pequena torcida celeste comece a quebrar os alambrados e tente passar para a área coberta, reservada aos carboneros. A polícia intervém. Os dois lados, mesmo distantes, parecem combinar uma briga para depois do jogo.

Na edição de domingo El Observador estampava a manchete “Sufre como loco, pero está vivo” ao ilustrar a situação do Peñarol. Título este que, sem esforço, poderia descrever os torcedores que enfrentaram o Centenário no último sábado.


Crônica escrita em 3 de maio de 2012 para a disciplina de Redação VI, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).