Cleópatra: A mulher é poderosa

De acordo com algumas pesquisas, Cleópatra foi uma grande líder política, em seu caminho estudou durante bastante tempo a filosofia, a arte, a cultura e dominava os saberes em diversos idiomas. Entretanto, alguns estudiosos afirmam que ela também foi uma pessoa sanguinária, impetuosa e utilizam outros adjetivos para descrevê-la… E ao nos depararmos com tais afirmações, nos questionamos: Qual foi o reinado que se estabeleceu de forma pacífica?

Na disputa pelo poder, quem detêm as maiores ferramentas de domínio, recebe a maior audiência. Mas, quando ampliamos as nossas leituras, dificilmente seremos pessoas manipuladas por apenas uma versão da história. Ao contrário, se nos desprendemos das mesquinharias e nos propomos a pensar, despertamos a nossa bela capacidade cerebral para ver, ouvir e entender da forma mais enriquecedora.

Todavia, quando pensamos na história de uma rainha, o processo de subjugação é ainda mais complexo… Ora, se ela domina o seu tempo, porque a narrativa posterior, quando sabe que não terá mais a sua voz para falar por si, age de forma covarde? Bem, o que está em jogo aqui não é a crítica a forma de governo – preferimos evitar o anacronismo e comparar qual é a melhor – mas ao tipo de linguagem que distingue a lembrança da Rainha Egípcia e César, por exemplo.

Cleópatra, mesmo depois de realizar grandes feitos dentro de sua época, teve a sua memória tão violada, ao ponto de distorcerem até a sua etnia. E isso não aconteceu apenas dentro do cinema, quando nos encontramos com a atriz branca, elegante, apaixonada, mas pouco governante Elizabeth Taylor… Perspectivas semelhantes estão presentes nos livros de outras pessoas, mas algo se salva na biografia escrita por Emil Ludwig.

Contam uma história, a mulher atua e reafirma paradigmas. E há também a mulher que atua contra si, quando luta contra a história de outra mulher. É como se a consciência de Ser Mulher esteja tão distante, que a alteridade parece um mito chafurdado pela inveja. E esse é o sentimento da impotência. Quem quer estar no lugar da outra pessoa, vê apenas as beneficies e ignora as desgraças do caminho percorrido. Quem quer ser outra pessoa, carece de si. E a mulher que ataca outra mulher, não faz isso para “reivindicar” uma humanidade além do gênero, faz isso porque desconhece o poder de cada representatividade

Não é casual que a rivalidade seja alimentada entre as mulheres, assim como é bastante astucioso que algumas crenças tentem esconder as sociedades matrilocais. Em quantos livros de História a mitologia que saúda as mulheres fortes e poderosas, são propagados? Quem assiste Malévola, talvez nem imagina quantas mulheres foram silenciadas, para que alguns perpetuassem um único modelo de feminilidade. No entanto, o tempo evidencia a estupidez e fortalece quem alimenta grandes propósitos. E a Rainha egípcia, mesmo sendo narrada por alguns como a sedutora, exercitou bem a retórica e criou soluções estruturais para vida da sua época.

Se para o filósofo Kant, o futuro da humanidade está presente em cada atitude humana, Hannah Arendt já nos alertou quanto ao perigo de sermos coniventes com as catástrofes sociais. Ou seja, muito mais do que nos alinharmos às superfícies dos discursos políticos, compreendemos que para realizar um novo tempo é preciso realizar uma nova leitura. De maneira que, se o objetivo é superar velhos vícios, prestemos atenção no tempo, no espaço e na escolha de cada palavra.

Cleópatra talvez seja o exemplo mais conhecido de distorção, mas não foi a única. Observamos quantas mulheres tiveram a sua história queimada, não apenas na biblioteca de Alexandria? Valorizamos os fatos ou nos perdemos em leituras superficiais? Analisamos bem o contexto e a conjuntura? Somos capazes de praticar uma leitura justa até mesmo com quem nos rejeita? Quanto vale o tempo e a dedicação de cada pessoa? Sim, existem épocas e pessoas diversas… Mas uma sociedade grandiosa, reconhece o valor de cada papel, mas também estimula mulheres e homens a serem pessoas poderosas.