Reflexões sobre liberdade e solidão: isolamento por escolha e o preço que se paga (Parte II)

(…) Liberdade é um conceito subjetivo e como todo conceito subjetivo, está vulnerável a mudanças. E no meu caso, este conceito terá que mudar.

Estar com o outro (não todos) me gera sensações desagradáveis. Medo, nervoso, ansiedade… Os riscos são diversos. Posso estar fazendo papel de boba. Posso estar sendo idiota, falando merda. Essa pessoa pode estar sendo falsa. Ela pode me enganar das mais diversas formas… Experiências passadas e nem tão passadas assim me mostraram que é necessário estar alerta, por vezes, paranoica. O golpe pode vir de qualquer lado e com isso, não há qualquer controle, qualquer liberdade. Seres humanos são completamente imprevisíveis.

Sabe aquela frase meio brega, “não acredite em ninguém”? Para mim, ela é bem verdadeira. Confiar no outro é um ato de alta periculosidade.

A terapeuta diz que é um problema. Eu concordo. Se isolar, desejar estar sozinha praticamente o tempo todo é uma ação que trouxe, traz e irá trazer conseqüências para os diversos campos de minha vida. Tirando o óbvio, que seria o campo social, reflexos negativos já se mostraram no campo do trabalho, por exemplo. Network é importante, senão essencial esses dias. Mas como se faz network quando o contato prolongado com as pessoas é exaustivo?

Algo me irrita na obrigatoriedade de sermos sociais. O mundo te obriga a ser social. A todo o momento. Conexões são necessárias e você deve viver para fazê-las. Optar por uma vida isolada é, na maioria das perspectivas, algo ruim. Se você é sozinho, você é fracassado.

Felizmente, o mundo moderno nos permite fazer “conexões controladas”. Você não precisa realmente conviver com uma pessoa para ter uma conexão com ela.

Contudo, me toma o fato de que o mundo nunca vai me aceitar por quem eu realmente sou, por quem eu quero ser. É cruel eu ter que mudar para me encaixar. É cruel eu não poder escolher como eu quero viver. Eu tenho que mudar para me encaixar.

É demais eu querer passar 85% do meu tempo sozinha? Sim, é. Balancear é necessário, a terapeuta diz. Eu concordo. Mas não quero. Não quero abrir mão da minha liberdade. Eu a valorizo demais. Não quero me por em situações que me causam aflição, ansiedade. Eu quero paz, quietude.

Obviamente, eu posso continuar exatamente do mesmo jeito, porém, como boa ansiosa que sou, vislumbres de um futuro escrito com esta tinta me preocupam.

E a ironia disso tudo, é que essa reflexão que faço aqui é fruto de uma coisa engraçada/curiosa que aconteceu comigo umas poucas vezes, num passado próximo. Peguei-me perdida numa indecisão. Ao passo que o desejo de isolamento é grande, familiar, bem-vindo e sua concretude, realizadora, uma coceirinha de socialização aparece aqui e ali.

Se eu me sinto tão bem sozinha, como posso estar querendo passar tempo com outros?

Com algumas pessoas tudo isso fica mais fácil, todavia. Pessoas que não te obrigam a nada, que não querem te despir nua e revelar todos os seus segredos (como se para ser amigo de alguém, você precisasse ter conhecimento de tudo o que o outro viveu, sentiu), pessoas que tem alguma noção sobre espaço do outro e sabem respeitá-lo. Ou até mesmo pessoas que, por alguma razão, te suportam. São raras, diria. Conheço algumas, contáveis em apenas uma mão.

Por enquanto, nesta reflexão, não lhes apresentarei nenhuma solução, pois não a tenho e nem a quero. Por enquanto, por aqui ficarei torcendo para que meu “objeto de liberdade” se transforme em algo mais saudável do que o desejo de estar sozinha. Transformação esta, que vejo que já se iniciou, lá no fundo, de forma calma, um tanto quieta, mas que já luto com todas as minhas forças para conter.