A água acabou.

Tomei o último gole bem devagar, tentando sentir cada átomo quente e cheio de areia que ainda restava no cantil. Gosto ruim, áspero e plástico, mas tão maravilhoso mesmo assim. Fonte de vida. A minha vida vai acabar em breve a não ser que apareça alguém no caminho, a não ser que chova, a não ser que aconteça um milagre.

O deserto é um monstro, um labirinto sem paredes, minha cova rasa e vasta. É onde vou desidratar até virar um esqueleto seco. Será que algum animal virá se alimentar de mim quando esse momento chegar? Provável, na natureza nada se perde. Mas onde estão eles agora que preciso me alimentar? Onde será que eles conseguem água? Devo prosseguir debaixo do céu até encontrar — ou morrer.

Olho para cima e vejo o sol, o único elemento que aparece e desaparece na paisagem. Enquanto dormíamos, o “guia” matou os outros turistas e fugiu. Ele matou os outros turistas. Levou nossas coisas. E fugiu. Durante o primeiro pôr do sol depois disso, o frescor soprava esperança: encontrarei meu caminho de volta, ainda tenho um cantil cheio, não estou tão longe, meu corpo é forte. Uma hora depois, sentia muito frio e medo. Ai, esse deserto. Me enfiei debaixo da areia ainda aquecida e esperei passar. Medo de encontrar alguém. Medo de não encontrar ninguém. Desejei com todas as forças que o sol voltasse a brilhar. Mas com a luz vem o calor, que me desidrata. Um calor sem sombra e sem trégua, sauna seca a céu aberto.

Já faz três dias. O corpo perdeu a força. Arrasto os pés levantando areia, cabeça baixa, olhos semiabertos, braços pendidos para baixo: derrotados. Melhor guardar o cantil vazio para quando encontrar água. Ou para colher o suor — eu ainda tenho suor? Não. Tudo aqui é seco e morto e eu estou me tornando parte dessa paisagem.

Quando o guia (ainda devo chama-lo de guia? Melhor dizer ladrão. Assassino) resolveu se voltar contra nós, o lugar com touceiras de capim verde estava há dois dias de viagem no lombo de um camelo. Não era muita, mas era vida, lembro de ter pensado na bandeira do Brasil enquanto passávamos por essa parte do deserto. Mas não sei devo busca-la ao norte ou ao sul, leste ou oeste.

Sinto que caminho sem sair do lugar. Passamos dessa zona verde em direção às areias douradas montados em camelos, turbante na cabeça, conversa solta. Passeio fácil de contratar em qualquer cidade turística à beira do Saara: seven days desert experience, dizia a placa. Tudo correu bem nos primeiros 3 dias. A areia brilhava de forma mágica. Agora estou no sexto dia de “passeio”. Desert experience nightmare. A areia ainda brilha, mas essa magia é negra. Aterroriza. Hipnotiza.

O ladrãoassassino passou a faca no pescoço dos gringos enquanto dormíamos. Me deixou sozinha em meio aos cadáveres com um cantil de água. Não choro por eles. Choraria por mim se tivesse água para desperdiçar em lágrimas. Por que o maldito me deixou viva? Vingança por eu não ter respondido aos seus avanços? Clemência para que eu encontre o caminho de volta? Não posso desistir. Não tenho mais nada além da esperança. E do cantil vazio.

Respiro fundo, o ar desce rasgando. Minha língua desliza pastosa pelos lábios ressequidos. Reúno minhas energias para uma última tentativa — será a última, já não há mais água. Seven days desert experience, viva ou morta. Amanhã será meu fim. Ou recomeço, se encontrar água de algum jeito — ainda não desisti. Se sair dessa, prometo que nunca mais contrato agência sem recomendação.

Do alto da duna, abro os braços e começo a girar, girar, girar, como os sufis em oração. Allah, Deus, Buda, Shiva, qualquer um, me salve, me aponte o caminho. Giro afundando os pés na areia, cada vez mais rápido. Pronuncio palavras sem nexo, oração ancestral, pedido de ajuda, de intervenção divina. Giro em torno do meu eixo, giro na direção contrária à da Terra, giro de olhos abertos em busca de algo, de alguém, da morte.

Uma sombra sobre o sol de repente: nuvem de chuva?! Um balão colorido. Devo estar alucinando.


Texto escrito em agosto de 2014 para o zine Amarillo Constante, de Paco Castro (MX), nunca publicado (talvez um dia o projeto seja retomado… enquanto isso, aqui está)

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