Minha irmã vai se casar

Minha irmã mais nova vai se casar e estamos todos muito felizes. Eles se amam, o relacionamento é sólido e carinhoso, as brigas são resolvidas na conversa, um ajuda o outro a crescer em vários campos da vida, os dois têm carreiras promissoras, personalidade própria e muita vontade de compartilhar mais da vida juntos. Matemática ideal para um casamento abençoado pelos deuses do amor e da razão. Espero que dure por muitos e muitos anos.

Minha irmã vai se casar, já estão alugando apartamento juntos. Não vai ter festa grande, só uma reunião dos amigos, sem pompa, sem super planejamento, sem véu, sem padre.

Minha irmã vai se casar e amigos da família já começaram a mandar presentes pra povoar a casa nova. “Sei que não vai ter festa, mas precisava mandar um presente pros noivos”.

Minha irmã vai se casar. “A primeira filha a sair da minha asa”, disse mamãe, se esquecendo que eu já saí de casa há 6 anos. Eu saí, voltei, fui de novo, voltei, saí mais uma vez e agora estou de volta.

“Você saiu, mas não dá pra dar presente de casa pra você, a qualquer momento você vende tudo e vai embora de novo”, corrigiu ela. Engraçado isso. Da primeira vez que saí de casa, foi de supetão, mas era pra sempre. Me mudei de cidade sem nada e ninguém me mandou uma geladeira de presente. Fui com uma mochila de 50 litros e umas sacolas com uns livros. Fui morar com uns amigos, apartamento já todo mobiliado e de vez em quando mamãe mandava uma panela que estava sobrando na cozinha dela, uns panos de prato, dois conjuntos de roupa de cama, completando o enxoval mambembe da minha independência. Recebi os presentes com muita alegria e não precisava, mesmo, de mais nada. O que precisei, comprei quando a grana sobrou.

Não me casei. Depois de um tempo me mudei pra outro apartamento, menos temporário, e decorei eu mesma o meu cantinho. Fiz minha mesa como eu queria, comprei uma cama enorme pra me aconchegar nas noites solitárias e abrigar os amantes ocasionais, investi em alguns eletrodomésticos pra cozinha, meu canto preferido da casa.

Minha irmã vai se casar. “Quando você se casar, ou for morar sozinha, vai ter pra você também”, finaliza mamãe. Peraí, mãe. Eu já me mudei. E já mudei de novo e de novo. Minhas raízes são aéreas. Me reinvento do avesso. Fujo do apego. Quando precisar de uma geladeira (de novo), vou lá e compro. Divido em diversas vezes, compro usada, me viro. Não me venha com essa cara de dó. De “minha filha vai ficar pra titia”. Vou, com orgulho. E, se calhar, vou ser tia e mãe. Mas não agora.

Minha irmã vai se casar e estou muito, muito feliz por ela. Quero ajudar a decorar seu apê de amor, quero que ela tenha minhas colagens em suas paredes, quero lhe presentear xícaras de café pra ela se lembrar de mim todas as manhãs. A ideia de felicidade dela não é a minha. O dela não é o meu caminho. Nossos desejos divergem e se desdobram com o mesmo objetivo de sermos felizes. Vamos atrás do que faz nossos corações baterem mais forte, cada uma com sua melodia.

Minha irmã vai se casar. E eu dançarei em sua homenagem.