Não irei pro espaço. Mandem postais.

Todo mundo sabe que eu amo viajar, né? Se você não sabia, saiba: é uma das minhas maiores paixões. Eu estou o tempo todo pensando em viagem, em paisagens maravilhosas pra ver, comidas pra experimentar, pessoas pra conversar, mercados pra barganhar, montanhas pra escalar, lagos, rios, cachoeiras e mares para me banhar… todas as viagens começam no pensamento e eu penso muito pra que as minhas aconteçam.

Só que viajar pra mim tem um limite: eu não tenho essa pira de ir pro espaço. Na verdade, não gosto nada da ideia de ter que ir pro espaço. Eu nunca iria pro espaço. Lá não tem ar. Como é que faz pra ir prum lugar que todo o seu ar tá num vidrinho comprimido, num compartimento dentro de uma espaço-nave-espaço-casa-espaço-sei-lá-quê.

Eu tô fora. Quer dizer, tô dentro, dentro do Planeta Terra. É por causa da falta do ar que eu também não gosto de mergulhar. Na verdade, o desgosto pelas viagens espaciais veio depois da vez que eu fui mergulhar e, apesar do mundo lindo lá embaixo, etc, não consegui me desligar do barulho da minha respiração, na paranoia de dar alguma coisa errado e eu ficar sem ar, mortíssima.

Se eu virasse sereia e começasse a respirar debaixo d’água é outra coisa. Adoraria, podem me chamar presse rolê que eu colo. Inventem guelras cyborgs que eu tô na primeira fila pra testar. Contribuo pra campanha no Kickstarter e tudo. Mas não me venham com essa de arzinho num vidrinho. É a mesma coisa no espaço, é ou num é? Sandra Bullock me entende.

Me deixem com meu medo, explorando o Planeta Terra até o último fio de cabelo. Saciarei minha curiosidade sobre a vida fora da Terra pelos seus posts nas mídias sociais do momento. Mandem snaps, mandem nudes.

Digo isso porque, se a gente não explodir o planeta antes (ou talvez por causa disso), viagem espacial é só uma questão de tempo. Vai acontecer, gente, vai acontecer, nem que demore muito e eu esteja velhinha ouvindo (vendo? sentindo? como se dará a comunicação no futuro?) a notícia da janela do meu quintal com pé de manga, amora e mexerica se ainda houver mangas, amoras e mexericas. Tudo bem se forem outras frutas se forem saudáveis pra comer e se lambuzar. Não estrague meu sonho com distopias de um mundo sem céu azul, sem verde e sem ar, ok? A Terra vai continuar existindo, só talvez (espero que não) meio inabitável numas áreas.

Você já pensou se iria ou se não iria? Pra fora do planeta Terra: você iria? Considerando que todo mundo que quisesse ir, pudesse ir. Tipo pegar um ônibus municipal, mas com uma viagem bem mais demorada que a linha 2004 Bandeirantes-Pilar*. Considerando que ia demorar anos pra você voltar (se voltar): o que você levaria pra lembrar da Terra?

Eu não levaria nada. Fico aqui com o ar, as plantas e as demais espécies que ficarem também.

Quando vocês forem pro espaço, mandem postais. Responderei um por um.


* Para não-belorizontinos que não puderam entender a dimensão desse trajeto de ônibus, ler “2004, Uma Odisséia”, de Gabriela Terenzi, Diogo Tognolo e Felipe Borges, uma série de crônicas publicadas no Google Maps.

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